O medo de gastar

Culpa e dívida transformam o consumo em autocontrole e a crise em comportamento.

Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
04/05/2026 às 14h24 Atualizada em 14/05/2026 às 08h48
pesquis antes de comprar

Há algo de estranho no consumidor brasileiro de 2026. Ele pesquisa antes de comprar, compara preços em três abas abertas ao mesmo tempo, desiste do delivery, cozinha em casa. Os estudos dizem que ele está "mais disciplinado". Mas disciplina não é a palavra certa. A palavra certa é culpa.

Setenta e seis por cento dos brasileiros pretendem cortar gastos este ano. Sessenta e nove por cento já reduziram compras por impulso. Mais da metade carrega dívidas, e uma fAitia expressiva não sabe como vai pagá-las.

Esses números circulam como evidência de maturidade financeira, como se o país estivesse finalmente aprendendo a se comportar. Mas o que eles descrevem não é maturidade. É angústia internalizada como virtude.

O superego econômico funciona assim: quando a precariedade se torna estrutural e duradoura o suficiente, ela deixa de ser sentida como injustiça e passa a ser sentida como merecimento. O sujeito que não pode gastar aprende a não querer gastar.

O desejo se curva diante da impossibilidade e retorna como autocontrole, como prudência, como orgulho moral de quem "não vive acima das suas possiblidades". A culpa pelo consumo antecede a compra, e às vezes a substitui.

Crises econômicas não afetam apenas o bolso. Elas mudam a forma como as pessoas se enxergam e se comportam. O que muda em 2026 é o papel ativo das plataformas nesse processo. A ansiedade financeira do brasileiro não existe num vácuo: ela é capturada, mensurada e devolvida ao sujeito como conteúdo.

compras on-line

O feed sabe que você está preocupado com dinheiro. Ele te oferece vídeos de "educação financeira", planilhas de controle de gastos, influenciadores que celebram o minimalismo como libertação espiritual. O que era sofrimento vira estética. O que era falta vira identidade.

Maurizio Lazzarato descreveu o homem endividado como a figura central do capitalismo contemporâneo, não o trabalhador explorado, mas o devedor moral, aquele cuja existência inteira se organiza em torno do pagamento de uma dívida que nunca se encerra.

No Brasil, essa figura ganha contornos específicos: a dívida não é apenas financeira, é subjetiva. O brasileiro endividado não apenas deve dinheiro, ele sente que deve uma explicação, uma justificativa, uma prova de que está tentando. O superego coletivo cobra.

E então vem o Desenrola

app Desenrola Brasil

Lançado, nesta segunda-feira (4), pelo governo Lula, o Novo Desenrola Brasil promete descontos de até 90% em dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.

É um alívio real para quem está sufocado, quase 30% da renda dos brasileiros vai hoje para o pagamento de dívidas, o maior patamar da série histórica. Mas o programa também é um texto político que merece ser lido com cuidado.

O Desenrola não é um perdão. É uma renegociação. O sujeito sai com uma dívida menor, mas continua devedor. A relação credor-devedor, aquela que, segundo Lazzarato, organiza toda a subjetividade do homem endividado, não é dissolvida. É recalibrada. A culpa é temporariamente amenizada, mas a estrutura que a produz permanece intacta. É como baixar a febre sem tratar a infecção.

Há ainda um detalhe revelador no desenho do programa: quem aderir fica bloqueado por um ano nas plataformas de apostas online. O gesto é politicamente inteligente, e analiticamente sintomático.

Ao identificar as bets como o inimigo da reorganização financeira, o discurso desloca o problema estrutural (juros abusivos, crédito predatório, salários insuficientes) para um problema de comportamento individual. A absolvição da dívida é concedida, mas de forma condicional, vigiada, mediante prova de disciplina. O devedor continua sendo o problema. O crédito que o capturou, não.

O superego econômico não desapareceu com o Desenrola. Ele mudou de forma. Antes cobrava a culpa de quem gastou demais. Agora, cobra a virtude de quem vai se comportar.

Depois vem a Copa do Mundo

Há uma racionalidade perversa no calendário de 2026: num ano de eleições e de consumo contido, o Brasil terá sua válvula de escape coletiva na forma do futebol. As pesquisas já antecipam crescimento de tíquete médio, aumento de consumo de snacks e bebidas, intensificação de rituais de celebração.

A Copa funciona como aquilo que Freud chamaria de formação reativa: o gozo que o superego proibiu durante meses retorna disfarçado de patriotismo, de festa coletiva, de exceção legítima. "Dessa vez pode." "É só uma vez." "A gente merece."

economizar e comprar

O problema não está na festa em si. O problema está no que ela esconde: que o desejo não desapareceu, apenas esperou uma autorização social para emergir.

O consumidor "disciplinado" que economizou o ano inteiro e explodiu os gastos na Copa não é mais racional do que o que comprou por impulso em janeiro. Ele é apenas um sujeito que encontrou o momento em que o superego deu permissão.

Nesse sentido, a Copa revela algo que os dados de consumo escondem: a ansiedade econômica brasileira não é resignação. É repressão. E repressão, como todo analista sabe, tem retorno garantido.

O que interessa politicamente aqui não é apenas o sofrimento individual, é o efeito de massa. Uma população que internalizou a precariedade como norma moral é uma população que tende a desconfiar de qualquer promessa de transformação.

Quem aprendeu que desejo é perigo não confia facilmente em quem oferece esperança. A austeridade subjetiva produz conservadorismo — não necessariamente no sentido partidário, mas no sentido psíquico: a preferência pelo conhecido, pelo controlável, pelo que "pelo menos não vai piorar".

Nas eleições de outubro, esse sujeito vai às urnas. E o candidato que souber falar à sua culpa, que souber dizer, ao mesmo tempo, "eu entendo que você está sofrendo" e "a culpa não é sua", terá uma vantagem que nenhuma planilha de intenção de voto vai capturar a tempo.

O medo de gastar é um sintoma, e sintomas, quando ignorados, encontram outras formas de se expressar.

 

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Fabiana Castro Há 4 meses Guará DFAndré, voce pode nos falar mais sobre esse plano do governo . tenho medo desse desenrolar ser mais um enrola na minha vida
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André Cavalcanti
André Cavalcanti
Mestre em Economia do Trabalho e Doutor em Economia Política. Economista e psicanalista. Autor da coluna Subjetividade e Poder, onde conecta economia, política e comportamento humano para revelar como sentimentos, valores e crenças moldam a vida coletiva.
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