Patrícia Nunes, de Brasília, e Mariana Souza, de São Paulo, duas leitoras e mães, abriram comigo um diálogo que quero trazer aqui para todas as famílias que nos acompanham no portal Lead Notícia.
Primeiro, muito obrigada a quem lê, comenta e dedica tempo para escrever - isso mostra que o que publicamos realmente atinge e ajuda pessoas.
Quando um texto sai do nosso espaço privado e chega a um portal como este, ele deixa de ser só meu e passa a ser de todos; isso é gratificante.
Não busco unanimidade - ao contrário: críticas educadas e ponderadas sempre nos fazem refletir e crescer.
Patrícia (Brasília) escreveu: "Doutora Alessandra, leio sempre seus textos e sou mãe de dois adolescentes. Deixo aqui uma sugestão para um próximo tema: saúde emocional dos adolescentes e como os pais podem apoiar sem invadir. Obrigada!"
Mariana (SP) escreveu: "Alessandra, como mãe, sinto que estamos sempre no limite entre proteger e ensinar. Dá medo ver como pequenas falhas no dia a dia podem crescer lá na frente. Por isso, tenho tentado estar mais presente, ouvir mais e não abrir mão dos limites. Muito difícil."
A partir desses depoimentos eu tomo a liberdade de conversar com vocês - pais e mães, avós, cuidadores - que muitas vezes se sentem desafiados ao educar na contemporaneidade.
Não estamos sozinhos: eu também faço parte desse grupo. Como mãe, educadora e pesquisadora, posso afirmar que não existe fórmula pronta. Mas há pontos claros que ajudam - práticas e atitudes que diminuem a ansiedade e aumentam a probabilidade de um vínculo forte e de adolescentes emocionalmente mais estáveis.
Não são adultos, mas também não se veem como crianças: isso altera a forma como se comunicam e se relacionam. O cérebro deles ainda está em desenvolvimento - especialmente as áreas de controle de impulsos e tomada de decisão- por isso erram, testam limites e são influenciáveis.
O contexto social (escola, grupo de amigos, redes) tem enorme impacto em comportamentos e valores.
1) Mantenha o diálogo aberto, mas respeite o espaço: Convide para conversar em momentos neutros (no carro, durante uma caminhada), não só em confrontos. Pergunte mais do que imponha: "O que você acha disso?" abre mais portas do que sermões.
2) Reforce limites com clareza e consequências previsíveis: Limites não são só proibições: são ensinamentos sobre responsabilidade. Seja consistente. A repetição importa - muitas vezes tantas vezes quanto for necessário.
3) Ajude-os a elaborar emoções e informações: Quando eles chegam com algo que parece trivial, pergunte o que isso significa para eles; valide sentimentos antes de resolver o problema. Ensine a avaliar fontes e distinguir boato de informação confiável — habilidade crucial em tempos digitais.
4) Evite bater de frente, mas não cale-se: “Não ser ouvido como antes” é comum — ajuste o tom: firmeza sem autoritarismo costuma funcionar melhor. Manter a autoridade afetiva: quando os adolescentes sentem que você os ama incondicionalmente, aceitam limites com menos rebeldia.
5) Use consequências naturais e lógicas: Quando possível, as consequências devem surgir das ações (ex.: bagunçou o quarto — itens pessoais são reorganizados ou há menos tempo de tela).
6) Seja modelo emocional: Mostre como lidar com erro, frustração e pedido de desculpas. A forma como você regula suas emoções ensina mais do que qualquer discurso.
7) Repetição e rotina: Pequenos pedidos cotidianos (colocar a toalha na máquina, arrumar o quarto) são treinamentos constantes de responsabilidade — e isso dá frutos a longo prazo.
8) Mantenha a porta aberta para voltar: O objetivo é que, quando precisarem, eles voltem; isso exige que aprendam o caminho de volta — como João e Maria deixando pedras no caminho. Ensine, repita, acompanhe.
A campanha do Boticário deste ano emocionou-me porque ilustra exatamente as partidas e despedidas que vivemos como mães e pais: cada etapa exige soltar um pouco e confiar que o trabalho feito até ali foi suficiente. Dói, sim - mas quando eles saem e ainda retornam quando precisam, é sinal de que cumprimos bem nossa missão.
Para concluir - um recado direto à Patrícia e à Mariana e a todas as leitoras/es: Obrigada por lerem e por sugerirem este tema. A preocupação de Patrícia com a saúde emocional e a pergunta sobre apoiar sem invadir são centrais; a experiência de Mariana sobre o medo das "pequenas falhas" que crescem é real e compartilhada.
O que podemos fazer, desde já, é cultivar diálogo, limites claros, repetição e acolhimento emocional. Isso não garante perfeição, mas constrói um caminho sólido para que nossos adolescentes possam voltar quando precisarem - e para que possam partir para a vida seguros, quando for a hora.
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