Geração sem empatia: o papel dos pais na prevenção da violência juvenil

Uma provocação sobre o desafio de formar filhos na era da permissividade.

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
05/04/2026 às 10h34 Atualizada em 20/04/2026 às 09h19

Como pedagoga com mais de 25 anos de experiência em educação e pesquisadora do comportamento humano, venho refletir sobre uma questão que se torna cada vez mais urgente na contemporaneidade: quem educa os pais que não sabem educar seus filhos?

Este questionamento não é apenas uma provocação, mas um chamado à responsabilidade coletiva diante de um cenário preocupante, no qual adolescentes, especialmente de classes média e média alta, têm se envolvido em atos infracionais análogos a crimes, muitas vezes com a conivência ou negligência de pais que, por diferentes razões, falham em exercer seu papel educativo.

Inicialmente, é imprescindível contextualizar a adolescência na contemporaneidade.

Vivemos em um mundo marcado por rápidas transformações tecnológicas, culturais e sociais, que impactam diretamente a formação da identidade dos jovens.

Diferentemente das gerações anteriores, nas quais os valores de respeito, hierarquia e limites eram mais rigidamente transmitidos, os adolescentes de hoje crescem em um ambiente de maior liberdade, mas também de menor orientação.

As diferenças geracionais se tornam evidentes quando observamos que muitos pais, pertencentes a gerações que valorizavam a autoridade, hoje se veem perdidos diante de filhos que questionam tudo e têm acesso ilimitado a informações, muitas vezes sem o filtro crítico necessário.

Assim, enquanto os jovens navegam por um mundo hiperconectado, os pais, por vezes, não conseguem acompanhar esse ritmo, resultando em um abismo de comunicação e compreensão.

Permissividade e ausência de limites

Nesse contexto, surge um fenômeno que agrava ainda mais a situação: a permissividade de pais que, tomados por sentimentos de culpa devido à ausência na vida dos filhos – seja por demandas profissionais ou por escolhas pessoais –, acabam adotando posturas superprotetoras ou complacentes.

Em vez de estabelecerem limites claros, muitos preferem “passar a mão na cabeça” dos filhos, escondendo comportamentos inadequados ou justificando atitudes problemáticas como “coisas de criança” ou “brincadeiras”.

No entanto, é fundamental esclarecer que tais atitudes não são inofensivas.

Quando observamos garotos e garotas entre 11 e 17 anos cometendo atos infracionais, como bullying, violência física ou psicológica, e até mesmo filmando e compartilhando essas ações em redes sociais ou grupos, estamos diante de um sinal claro de ausência de empAitia, altruísmo e generosidade humana.

Isso não é brincadeira, mas um indicativo grave de falhas na formação ética e emocional desses jovens.

Além disso, um dado alarmante reforça a gravidade do problema: o aumento do número de adolescentes de classes média e média alta envolvidos em crimes.

Embora não sejam vítimas de condições sociais adversas, como muitas vezes se associa à delinquência, esses jovens frequentemente são vítimas de uma educação que os superprotege ou negligencia a importância de consequências.

Juventude privilegiada e avanço da violência

Esses números desafiam o estereótipo de que a criminalidade juvenil está restrita a contextos de vulnerabilidade social e nos obrigam a olhar para o papel dos pais na formação de valores e na imposição de limites.

Portanto, é imprescindível que os pais abram os olhos para sinais de alerta em seus filhos, como excesso de fúria, falta de compaixão e empAitia, ou comportamentos que ridicularizam e humilham os semelhantes. Tais atitudes, quando ignoradas, podem se consolidar e, ao chegarem aos 18 anos, não desaparecerão magicamente.

Pelo contrário, a ausência de intervenção precoce pode transformar esses jovens em adultos que desrespeitam leis e normas morais, contribuindo para uma sociedade mais violenta e desumanizada.

Delinquentes, no sentido etimológico da palavra – que deriva do latim delinquere, significando “falhar” ou “abandonar um dever” –, são aqueles que cometem infrações, sejam legais ou éticas, e esse comportamento muitas vezes tem raízes em uma criação que falhou em ensinar responsabilidade e respeito ao outro.

Responsabilidade coletiva e ação

Diante disso, a preocupação central permanece: quem educará esses pais, já adultos, que não enxergam a realidade cruel de seus filhos ou, pior, contribuem para que eles desenvolvam tais comportamentos?

Se os pais falham na criação, a sociedade como um todo sofre as consequências, recebendo futuros delinquentes que poderiam ter sido orientados de outra forma.

Por isso, é um dever coletivo não menosprezar atos infracionais, por menores que pareçam. Não se deve deixar passar situações de bullying ou violência, seja no ambiente escolar, seja em condomínios ou outros espaços de convivência.

É necessário registrar ocorrências, exigir reuniões com os pais dos agressores nas escolas – documentando tudo em ata – e, em casos de repetição, levar a questão às delegacias.

Acionar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não é apenas um direito, mas um dever para com a sociedade, visando proteger tanto as vítimas quanto os próprios agressores, que precisam de intervenção para mudar seu rumo.

Por fim, destaco a importância de que escolas e comunidades promovam debates contínuos sobre essas temáticas. As instituições de ensino devem ser espaços de reflexão sobre empAitia, respeito e convivência, envolvendo pais e alunos em discussões que vão além do currículo acadêmico.

Da mesma forma, grupos de síndicos e moradores de condomínios precisam assumir sua responsabilidade na construção de ambientes seguros, enfrentando situações de desrespeito com seriedade. Somente por meio de uma ação conjunta – entre família, escola e sociedade – será possível reverter esse quadro preocupante.

Afinal, educar não é apenas tarefa dos pais, mas um compromisso de todos nós, que desejamos um futuro pautado na ética, na solidariedade e no respeito mútuo.

 

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MarcelaHá 5 meses GoiásSemana passada tive contato com um texto que falava que mais do que a comunicação verbal (diálogo) o que educa mesmo é o exemplo. Por exemplo, um menino adolescente que é misógino, que xinga meninas com palavreado de baixo calão. De que adianta a mãe dizer que isso é errado se o pai, por outro lado, adota esse comportamento de xingar mulheres, de agredi-las verbalmente quando é contrariado? Seria no mínimo confuso para esse adolescente ver a mãe falar uma coisa e o pai praticar outra.
Tati Há 5 meses Taguatinga Me ajudem. Não tá fácil criar filho hoje.
Patrícia Há 5 meses SalvadorA sensação é de que estamos sempre correndo atrás para dar conta de tudo. Mas quando o assunto é educação dos filhos, não dá para terceirizar.
Renata Oliveira Há 5 meses MGA educação não pode ser responsabilidade só da família, as escolas têm um papel importante e fundamental
Patrícia NunesHá 5 meses Brasília Doutora Alessandra, leio sempre seus textos e sou mãe de dois adolescentes, deixo aqui uma sugestão para um próximo tema: saúde emocional dos adolescentes e como os pais podem apoiar sem invadir. Obrigada!
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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