A patologia da posse:  homicídio e falha na gestão da frustração

O crime em Itumbiara expõe cultura da posse, misoginia e falha na educação emocional

Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
18/02/2026 às 06h00 Atualizada em 23/02/2026 às 08h52

secretário da prefeitura de Itumbiara, Thales Machado, em foto com os filhos

O assassinato de duas crianças pelo próprio genitor em Itumbiara, no sul de Goiás, não deve ser lido apenas como uma tragédia isolada, mas sim como um sintoma agudo de uma falha sistêmica em nossos processos de formação humana.

Enquanto as mídias e redes sociais muitas vezes se perdem em "pseudoanálises" que tentam encontrar justificativas na conduta da mãe - em um exercício perverso de transferência de culpa que flerta com a misoginia - é imperativo deslocarmos o olhar para a pergunta que realmente importa: desde quando qualquer decepção pessoal pode ser aceita como justificativa para o aniquilamento da vida?

Dias após essa situação,  nova tragédia - na mesma cidade - tem como foco o suposto feminicídio seguido de suicídio, envolvendo também violência contra uma adolescente (filha da vitima). O caso segue sendo investigado.

Nesse sentido, precisamos encarar que casos como estes revelam uma incapacidade patológica de lidar com o "não" e com a perda, algo que começa a ser gestado ainda na infância.

Quando observamos pais que assassinam filhos para não pagar pensão ou que rompem o vínculo afetivo simplesmente porque a criança permanece sob os cuidados da mãe, percebemos que estamos lidando com homens adultos que nunca saíram da fase em que, se o brinquedo não funciona como desejam, eles o quebram.

mãe dos meninos mortos

Essa regressão emocional é alimentada por uma cultura que muitas vezes mima o "reizinho", privando o menino de aprender a processar a rejeição e a frustração de forma saudável, transformando a negativa em um combustível para o ódio.

Portanto, discutir a educação de gênero torna-se urgente, pois as estatísticas reforçam quem são os autores desse tipo de violência extremada.

É necessário ensinar o menino a crescer e, mais do que isso, mostrar a ele que ser homem envolve responsabilidade e resiliência emocional, e não domínio. Precisamos que mais homens pensem e falem sobre essa temática.

Paralelamente, devemos educar as mulheres para que não aceitem menos que relações respeitosas, encorajando-as a se posicionar diante de abusos, compreendendo que elas jamais podem ser responsabilizadas pela barbárie do agressor, independentemente de qualquer julgamento social sobre suas vidas privadas.

A premeditação fria do caso de Itumbiara, que envolveu o uso de tecnologia e profissionais para expor a mãe antes da execução dos filhos, demonstra um desejo sádico de condenação perpétua da mulher ao sofrimento absoluto. Diante de tamanha brutalidade, torna-se irracional qualquer tentativa da sociedade de "justificar" o genitor.

Trata-se de crimes planejados que fogem totalmente à racionalidade e que revelam doenças emocionais que precisam ser debatidas à luz da sociologia e da psicologia, buscando entender o porquê muitos homens ainda canalizam sua dor na aniquilação do outro.

Em última análise, educar para a humanidade exige que utilizemos a comunicação para além do superficial, instigando nossos filhos/filhas a refletirem sobre suas emoções e limites.

Se não formarmos pessoas capazes de processar nossas questões internas e lidar com as inevitáveis negativas da vida, continuaremos a testemunhar homens adultos agindo com a fúria mimada de uma criança, mas munidos com o poder letal de um carrasco cruel e insano.

Nada justifica tirar vidas!!!

Minha total solidariedade às mulheres vítimas de violência e às famílias que sofrem as consequências de atos desumanos como esses.

 

 

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Karina Mello Há 8 meses Camposessa história é muito triste. Coitada dessa mulher. Força
Fernanda Há 8 meses Lago Norte DFConcordo com vc Alessandra. Quando frustração vira violência, toda a sociedade falha. Educação emocional também é política pública.
Patrícia SilvaHá 8 meses Vila Mariana SPMeu coração dói com essa história. É devastador ver como a incapacidade de lidar com frustrações pode evoluir para tragédias irreparáveis. Precisamos urgentemente fortalecer a educação emocional desde a infância e questionar padrões tóxicos que moldam comportamentos adultos. A vida não pode ser justificada por escolhas baseadas em dor.
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Alessandra Moulin
Alessandra Moulin
Pedagoga com mais de 25 anos de experiência e Doutora em Educação pela UnB, é sócia-fundadora da Pangea Consultoria Educacional. Seus estudos enfocam temas como Currículo, Ensino Militar e Defesa Nacional. Dedica-se à pesquisa educacional com rigor acadêmico, oferecendo conteúdo objetivo e confiável para a compreensão de temas educacionais contemporâneos
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