A recente repercussão de um vídeo em que o ex-jogador Túlio Maravilha, sua esposa Christiane e a filha Tulliane explicam porque a jovem não cursará uma universidade pública, mesmo tendo sido aprovada na UFRJ e na UERJ, trouxe à tona um debate importante sobre a imagem e o valor das instituições federais de ensino superior no Brasil.
As justificativas apresentadas pela família (valores familiares, questões de logística e segurança e críticas à precariedade das federais) ecoaram nas redes sociais e na sociedade em geral.
Como professora, pedagoga e doutora em Educação formada em uma universidade federal, sinto-me compelida a posicionar-me contra um discurso que considero, no mínimo, preconceituoso. A palavra “preconceito” vem do latim Prae conceptus e significa um juízo formado antecipadamente, sem a devida análise dos fatos ou compreensão das causas.
É justamente isso o que parece permear a narrativa de que universidades públicas seriam espaços que formam “pessoas acéfalas e completamente manipuláveis”, ou onde docentes fariam “lobotomia” em estudantes para transformá-los em opositores dos valores familiares.
E pasmem!!! As universidades públicas são lugares de multiplicidade de saberes. Aqui uso o sarcasmo para sublinhar a ironia de tais acusações. São ambientes em que diferentes formas de pensar convivem.
Assim, aprender a lidar com o diverso é enriquecedor e exige empAitia e respeito, virtudes nem sempre presentes no debate público.
Não me proponho a elogiar um posicionamento político e demonizar outro; meu foco é a defesa da pluralidade e o direito à convivência com o que é diferente, algo que incomoda quem prefere cercar-se apenas do “mais do mesmo”.
Recordo meu ingresso na UnB quando eu era muito jovem. A experiência de sair da bolha (casa e escola, já públicas, que já me expunham a alguma diversidade) e encontrar um universo plural de pessoas, perspectivas e práticas foi transformadora.
Nesse contexto me percebi recebendo um convite para sair da zona de conforto, estudar mais e ampliar horizontes ao conviver com colegas de cursos e trajetórias distintas.
Em adição, argumenta-se que instituições privadas também promovem diversidade, e de fato muitas a promovem.
Porém, a lógica e a missão das universidades públicas, especialmente após as políticas de ação afirmativa, ampliaram a representatividade social e cultural desses espaços.
A universidade pública, nos últimos anos, passou a refletir com maior fidelidade a pluralidade do país. Muitas resistências ao “diferente” surgem, em verdade, quando o respeito à diversidade exige conviver com ela de perto.
Além disso, é preciso lembrar o papel central dos docentes doutores nas universidades públicas: são profissionais altamente qualificados que ensinam, orientam e lideram projetos de pesquisa que geram conhecimento, inovação tecnológica e contribuições sociais relevantes.
A qualidade do ensino e o desenvolvimento científico em instituições federais dependem fortemente da formação e dedicação desses professores, que muitas vezes atuam sob limitações de recursos e, ainda assim, mantêm elevado padrão acadêmico e produtivo.
Portanto, o vídeo da família Maravilha é, na melhor das hipóteses, uma generalização infeliz.
É direito da família e da jovem decidir onde estudar; contudo, ridicularizar e desqualificar as instituições públicas constitui desprezo pelo esforço e pelo sonho de milhares de estudantes.
Nessas universidades formam-se excelentes profissionais, muitas vezes por meio de grande sacrifício e determinação por parte de alunos que não dispõem das mesmas condições econômicas de celebridades.
Sendo assim, ridicularizar a formação pública como se seus diplomados não pudessem respeitar valores familiares é, além de injusto, profundamente ofensivo.
A polêmica também reacendeu episódios antigos envolvendo o mesmo ex-jogador e a repórter Bárbara Coelho: relatos públicos da jornalista afirmam que, após uma entrevista, Túlio mostrou uma imagem das partes íntimas para ela durante a produção de um programa.
O episódio causou constrangimento, teve testemunhas e repercussão na época; recentemente, com as declarações sobre “valores familiares”, o relato voltou a viralizar.
Esses desdobramentos são relevantes para avaliar a coerência da imagem pública projetada pelo ex-atleta, ainda que eventuais apurações legais dependam de procedimentos formais.
É preciso acreditar na possibilidade de mudança e no crescimento pessoal; afinal, todos podem aprender e transformar comportamentos.
Ainda assim, isso não retira a necessidade de responsabilização e de reconhecer contradições quando elas reaparecem no discurso público.
O convívio com o diferente nos desafia e nos oferece oportunidade de refletir e repensar nossas formas de ver o mundo, e a universidade pública é, por excelência, um espaço privilegiado para esse exercício.
Além disso, é necessário olhar criticamente para discursos que repetem juízos simplistas sem conhecer o que significa estudar em uma instituição federal (sua história, suas práticas acadêmicas e a pluralidade que ali se constrói).
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