Quando entra fevereiro e as crianças voltam para a escola, existe uma sensação no ar de respiro coletivo.
É quase uma comemoração em grupo de “sobrevivemos a mais uma”.
Não há uma mãe, nesse início de ano, que não olhe para trás e pense que deu conta: trabalhou; manteve os filhos vivos, apesar das brigas; garantiu alimentação e diversão e, ainda por cima, entregou todo mundo mais corado na escola, com todo o material escolar comprado.
Dezembro e janeiro são meses conturbados para a mãe. Mas este ano eu experimentei uma sensação diferente: eu tirei férias dos filhos.
Calma, veja bem. Antes de me julgar, continue mais umas linhas.
Não foi uma escolha. Meus filhos têm férias compartilhadas com o pai, e este foi meu primeiro janeiro com 15 dias livres, to-tal-men-te livres.
Eu malhei todos os dias. Dormi muito. Passei alguns dias sem pensar em comida, por pura preguiça de decidir o que comer. Em outros, me alimentei de vinho. Viajei sem as crianças.
Por alguns dias, suspendi a minha versão mãe e reencontrei uma Marina que, às vezes, parece distante até de mim.
Essa experiência — poder pensar em mim de um jeito quase egoísta — tem um efeito colateral: ela escancara o quanto a maternidade não admite intervalos.
Coincidentemente ou não, foi num desses dias que me deparei com o vídeo que viralizou de uma mãe com o bebê no colo, andando na esteira de uma academia. Ela está fazendo o que pode, dizia a legenda.
Assista ao vídeo:
Na minha academia, todas as quintas, encontro uma mãe que se divide entre o bebê no peito e no carrinho. Ninguém a olha com admiração; olham com pena.
Como se a leitura fosse automática: coitada, não consegue ter tempo para treinar sozinha.
No ano passado, um instrutor passou uma semana inteira dando aula com o bebê no sling. A reação não foi parecida. Não havia pena — havia aplauso. Nele, parecia estampado “pai do ano”.
A diferença revela uma regra silenciosa: olhamos para a mãe sempre com a obrigação de vê-la cuidando. Cabe a ela essa responsabilidade. Logo, vê-la vivendo algo diferente disso — ou ver o pai fazendo o que, tradicionalmente, não cabe a ele — gera estranhamento demais.
E a gente estranha porque a mãe não é vista como pessoa, é vista como função. Chamam de amor, de instinto, de jeito de mãe.
Mas, na prática, é uma economia do cuidado: um trabalho invisível que mantém a vida de pé e que, se fosse contado como riqueza, entraria no ranking das maiores economias do mundo, com apenas quatro economias acima desse valor.
Quando a mãe tenta sair do papel, o mundo estranha, porque alguém vai ter que segurar o que ela segurava. E é aí que o meu, o seu, o nosso descanso vira suspeita. Estamos preparadas para um mundo em que a mãe pode tirar férias?
Minha tia, desde que eu me separei, diz que devia existir uma lei que obrigasse as mães a terem o direito de tirar dias para si. Férias mesmo para a mãe. Mesmo as casadas. Que, se fosse instituída a guarda compartilhada para as casadas, os casamentos, sem dúvida alguma, durariam mais.
Eu votaria no direito de férias para as mães. Não como luxo, mas como manutenção. Você não?