O gesto que segura o mundo

Entre o medo e a força, o relato de uma mãe que encontra no amor a maneira de sustentar o filho e a si mesma nos momentos mais difíceis.

Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
22/04/2026 às 06h00 Atualizada em 05/05/2026 às 21h40

“Aperta minha mão, bem forte. O mais forte que você conseguir que vai ficar tudo bem.”

Repeti essa frase várias vezes antes e depois de uma cirurgia que meu filho precisou fazer. Enquanto esperava os eternos 55 minutos ao lado do centro cirúrgico, pensei em todas as mães que já passaram — ou passam — por aquilo ali rotineiramente.

Porque esperar, para uma mãe, quase nunca é só esperar: é tentar manter a fé em pé enquanto a cabeça corre por cenários, tarefas, medos e combinações impossíveis.

Um filho no hospital, um filho doente, é um teste de fé para qualquer uma. É quando nos perguntamos “por quê?” ao mesmo tempo em que colocamos aquele sorriso falso no rosto e resolvemos todas as outras 27 coisas que envolvem algo desse tipo: as consultas pré-cirúrgicas, os remédios comprados antecipadamente, as adaptações da casa e do outro filho, jogos e distrações para o pós-operatório.

E ainda tem o bastidor invisível — o “como” de tudo isso: como iremos, quem dorme com a menor para sairmos de madrugada, o que tem de comida, quem vai levar e buscar na escola, o que vestir. Até para sofrer o tempo é escasso. É preciso se angustiar enquanto resolve o checklist eterno e equilibra os pratinhos, como se a dor também tivesse que caber numa agenda.

“Você tem certeza de que ele ainda não chegou na sala de recuperação? Eu prometi a ele que estaria o tempo todo ao lado dele, ele não pode abrir o olho e não me ver”, expliquei mais de uma vez para a enfermeira que vigiava a porta.

A gente faz umas promessas difíceis de cumprir, né? Promessas que são quase uma tentativa de negociar com o medo. Até hoje me lembro da minha mãe dizendo que o mertiolate não ia arder na esperança de um milagre, só para me confortar. Como se a palavra certa pudesse reescrever a sensação.

No dia seguinte à cirurgia, a minha missão era tirar um curativo grudado com uma gaze extraterrestre que parecia colada com super bonder. A cirurgia já tinha passado, mas a dor ainda não. Vi, pela primeira vez em cinco anos, meu filho gritar com um olhar de desespero e sofrimento que me atravessou num lugar que eu nem sabia que existia.

“Mãe, eu quero voltar ao normal. Não aguento mais sentir dor.”

“Eu sei, filho. Se eu pudesse eu tirava toda essa dor que você está sentindo e colocava ela em mim. Sentia tudo no seu lugar. Mas não posso. Então aperta bem forte minha mão para ver se ajuda um pouco”.

A gente ainda estava no pós-operatório crítico quando eu li um texto sobre mães não pularem do barco. Era uma dessas coisas que chegam no meio do caos e, por algum motivo, parecem ter sido escritas exatamente para aquele minuto.

Dizia assim: “O mundo pode estar desabando, incendiando, as paredes caindo. A mãe está lá. [...] O choro pode estar preso na garganta, o medo tomando conta, culpa, insegurança, seja lá o que estiver passando no coração materno, ainda assim ela está lá. De pé, ao lado do filho. [...] Ela está lá para abraçar, para secar as lágrimas, para dar a mão, para carregar no colo. Ela está lá”.

Eu li e pensei: é isso. Não porque a mãe seja de ferro, mas porque, na prática, alguém precisa sustentar o “vai ficar tudo bem” enquanto tudo dentro dela pede para desabar.

O bom da criança é que a recuperação é infinitamente mais rápida que a nossa. A criança volta para a vida com uma velocidade que humilha a nossa.

A mãe millenial pega uma virose e sofre pensando como o filho poderá sentir todo aquele mal-estar e sobreviver. O filho passa por isso brincando. E eu ainda vigiava o meu para não correr quando, ao sair do prédio, o portão pesado prendeu o dedo da irmã.

Ela me olhou com o mesmo olhar de desespero. Como se o mundo dissesse: ainda não acabou. E então, enquanto eu dirigia e tentava acalmá-la do banco da frente, escutei a seguinte frase: “Eu sei que está doendo, irmãzinha. Aperta forte minha mão. Se eu pudesse, eu tirava a dor de você e colocava em mim. Mas não tem como. Então aperta minha mão bem forte que vai melhorar um pouco”.

E, naquele momento, de repente, o meu “por quê” fez sentido. Não como resposta bonita para o sofrimento — mas como um desses sentidos discretos que aparecem no meio da vida real. A dor não ficou menor. Mas virou linguagem. E a linguagem tornou-se cuidado. Talvez seja isso que a gente faça, sem perceber: a gente transforma aquilo que nos atravessa no que sustenta o outro.

 

Me acompanhe nas redes: @marinammarquez / @avisacomunicacao

 

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Josiliene MendesHá 4 meses Vila Mariana, São Paulo (SP)Marina, sou mãe de dois meninos, de 4 e 7 anos, e lendo seu texto me vi ali em vários momentos. Existe uma força silenciosa na maternidade que só a gente entende, esse impulso quase instintivo de proteger, acalmar e, ao mesmo tempo, segurar o próprio medo para não deixar transparecer. Tem dias em que a gente precisa ser coragem mesmo sem se sentir pronta. Obrigada por traduzir em palavras algo que tantas de nós sentimos, mas nem sempre conseguimos dizer.
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Marina Marquez
Marina Marquez
Jornalista, escritora, empresária e mãe de dois. Com mais de 18 anos de trajetória na comunicação, escreve sobre maternidade, rotina, afetos e os desafios da mulher real. Em sua coluna “De mãe para mãe”, compartilha reflexões sobre os encontros e desencontros da maternidade e da vida — sempre com sensibilidade, coragem e um toque de leveza. Acredita que contar histórias é também uma forma de cuidar.
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