Não é difícil encontrar venezuelanos por aqui. Em Buenos Aires, eles estão nas ruas, nos cafés e nas lojas.
Muito frequentemente, estão também no banco da frente do Uber. Basta uma corrida curta e uma pergunta simples para que a Venezuela apareça na conversa.
Histórias de médicos que hoje dirigem, professores que agora entregam comida e famílias inteiras que trocaram Caracas por bairros portenhos em busca de previsibilidade são comuns.
Quase todos relatam a mesma coisa sobre a decisão de sair do país. Foi menos uma escolha e mais uma urgência.
Buenos Aires virou um refúgio possível, com trabalho, alguma estabilidade e uma vida que, mesmo apertada, segue em frente. Para muitos, ficar já não era uma opção.
Quando o assunto é o sequestro de Nicolás Maduro pelos EUA e a escalada da intervenção americana, as opiniões deixam de ser homogêneas.
Alguns demonstram alívio, como um suspiro guardado por anos. Outros, mesmo críticos ao chavismo, mostram desconforto com a forma como tudo ocorreu.
A queda de um regime não elimina, automaticamente, o medo da guerra e de um país ainda mais dividido.
Esse sentimento dialoga com a análise do professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Antonio Jorge Ramalho da Rocha é direto.
O compromisso de Donald Trump com o direito internacional é nenhum.
Ainda de acordo com o professor, Trump não enxerga as relações internacionais como um sistema regido por normas, mas como um jogo de força e interesse imediato.
Isso, segundo o professor, torna o mundo mais imprevisível e mais perigoso.
Na Argentina, essa imprevisibilidade ganha contornos próprios.
O presidente Javier Milei não esconde sua afinidade ideológica com Washington nem sua oposição histórica ao governo venezuelano.
Seu discurso tem sido alinhado à lógica do enfrentamento direto, em contraste com líderes que defendem a diplomacia e alertam para os riscos de precedentes na região.
Basta acompanhar os programas de rádio e tv e uma pergunta se repete. Se a soberania pode ser relativizada hoje, quais são os limites amanhã?
Para muitos analistas, a ação americana não se restringe à Venezuela, ela ecoa por toda a América Latina.
Talvez por isso viver em Buenos Aires neste momento torne tudo mais concreto.
A Venezuela não é apenas um tema geopolítico distante. Ela está no trânsito, no mercado e no café da esquina. Está na fala de quem reconstruiu a vida aqui, mas ainda carrega o país na memória.
É essa proximidade que torna o debate menos abstrato e mais urgente.
Quando a América Latina entra em rota de colisão com interesses globais, não são apenas governos que pagam a conta. São pessoas comuns, muitas delas sentadas ao volante, perguntando para onde você quer ir.
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