Entre cliques, o que ficou

A colunista Marina Marquez reflete sobre o valor das memórias cotidianas e a construção simbólica de um ano através de um fotolivro.

Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
10/12/2025 às 06h00 Atualizada em 28/12/2025 às 14h41
Marina Marquez - colunista Lead

Todos os anos, na Black Friday, eu compro um fotolivro para montar com as fotos do ano. Mais do que um registro impresso, criar as 26 páginas contratadas é quase um exercício de revisitar o passado.

É um tipo de pausa que não costuma acontecer no ritmo das semanas. A gente vai vivendo, vai tirando foto, vai correndo, vai esquecendo. Mas, quando chega a hora de escolher as imagens que vão “morar” naquele livro, algo muda.

Eu passo a olhar o ano com outros olhos. E, sem perceber, começo a peneirar memórias como quem procura pedras preciosas num riacho.

Quantos dias passaram em branco entre uma imagem e outra? Quantos momentos importantes escaparam da câmera, mas não do coração? Quantos sorrisos, detalhes, olhares, carinhas amassadas de sono estavam ali — quase esquecidos, mas vivos no clique?

Reconexão consigo mesma

Em algum ponto da montagem, meu rosto desacelera junto com a rolagem. E, de repente, eu não estou mais editando um álbum. Estou reencontrando uma versão de mim mesma.

Uma mulher que acordou cedo, que ficou doente, que levou, buscou, limpou, abraçou, que escondeu o cansaço atrás de um “tá tudo bem”... Que chorou no banho, gargalhou no meio da bagunça, comemorou cada novo passo, cada conquista, cada frase dita do jeito errado.

A mesma que errou, como eles, dia após dia. E que se desculpou, num exercício de ensinar e, ao mesmo tempo, encontrar um caminho que nem sabia que existia.

E neste exercício que parecia só a montagem de um fotolivro estão eles: meus filhos, crescendo mais do que eu me permiti perceber. Como num piscar de olhos, já não são bebês, já têm diversos registros de uma autonomia que eu estimulo e, ao mesmo tempo, lamento quando vejo debaixo do meu nariz. A pequena que já não cabe no colo. O maior que não aceita ser colocado num potinho para parar de crescer.

E ali estou eu, muitas vezes registrada apenas nas selfies amontoadas ou no espelho sujo com os dedinhos pequenos: uma mulher que, entre tantas tarefas invisíveis, deixou impressa sua presença nos intervalos do dia; e em cada canto da vida cotidiana.

O que as fotos não mostram

Sempre que termino de selecionar as fotos, fico com a sensação de que elas revelam menos sobre os eventos e mais sobre o que, no fundo, importa. Os bastidores que não aparecem nas fotos, mas são a estrutura de tudo.

A maternidade, para mim, tem sido isso: um processo constante de lembrar. Lembrar que a memória da infância não é feita só de festas grandes, mas de jantares simples com risadas bobas.

Que os grandes momentos cabem em detalhes pequenos. Que os olhos se encontram antes da câmera do celular. Que o essencial raramente vai para a nuvem, mas sempre fica no coração.

O fotolivro que demora semanas para ser montado e é um verdadeiro exercício de seleção do que importa só chegará semanas depois. No outro ano. Ele não tem cheiro de papel novo, mas tem um cheiro profundo de tempo vivido. De escolhas. De amor em detalhe. De um ano que talvez tenha sido o mais caótico, cansativo, desafiador — mas foi nosso, foi inteiro, e foi o melhor que podia ter sido até aqui.

E a cada vez que eu abro um dos fotolivros guardados na estante, me lembro: o que realmente importa quase nunca tem legenda, mas sempre tem lugar.

 

 

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Camila SouzaHá 8 meses Moemi SPadorei como você mostrou que o que realmente importa nem sempre aparece na foto, mas fica guardado na lembrança, nos detalhes da rotina e no vínculo com nossos filhos. Hoje o povo tudo quer tirar foto. Uma reflexão que me fez pausar e olhar com mais cuidado e amor para os meus próprios “cliques” de cada dia
Plinia LoudesHá 8 meses Santo Antônio Minha amada mãe fazia muito isso. Hoje, olhamos as fotos do passado e nos emocionamos
Liliam Há 8 meses Brasilia DFAdorei! Realmente por trás de cada foto tem um história. E são esses retratos cotidianos que contam♡
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Marina Marquez
Marina Marquez
Jornalista, escritora, empresária e mãe de dois. Com mais de 18 anos de trajetória na comunicação, escreve sobre maternidade, rotina, afetos e os desafios da mulher real. Em sua coluna “De mãe para mãe”, compartilha reflexões sobre os encontros e desencontros da maternidade e da vida — sempre com sensibilidade, coragem e um toque de leveza. Acredita que contar histórias é também uma forma de cuidar.
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