A situação que tomou conta do Rio de Janeiro nos últimos dias despertou curiosidade, apreensão e muitas perguntas do lado de cá. Colegas e vizinhos argentinos nos abordam com a mesma dúvida: “O que está acontecendo por lá?”
A sensação é de espanto. Para quem acompanha de fora, a cidade parece ter se transformado, de repente, em cenário de guerra.
A terça-feira de operações policiais e mortes nas comunidades cariocas virou manchete nos principais jornais da Argentina.
O La Nación descreveu “imagens dantescas de uma cidade sitiada”. O Infobae falou em “caos colosal”. E o Página/12 usou a expressão “guerra urbana” para retratar as cenas que paralisaram o Rio.
A cobertura vai além da violência em si. Os jornais fizeram conexões diretas entre o Comando Vermelho e a preocupação regional.
Analistas lembram que a facção atua em rotas que passam pela Argentina, especialmente no tráfico de armas e na lavagem de dinheiro.
A operação, vista daqui, acendeu o alerta do governo argentino sobre o avanço do crime organizado na América do Sul.
A Casa Rosada, sede do governo argentino, informou que o país entrou em “alerta máximo” nas fronteiras com o Brasil, como resposta à operação policial no Rio de Janeiro.
Além disso, o governo classificou o Comando Vermelho como “organização narcoterrorista”, numa decisão que busca reforçar o controle de segurança nas áreas de fronteira e sinalizar endurecimento no combate ao crime transnacional.
O cônsul argentino no Rio, Jorge Perren, buscou acalmar os ânimos.
“Queremos levar tranquilidade às famílias de argentinos: não há registros de compatriotas afetados pelos confrontos.”
Na análise da socióloga Laura Etcharren, publicada no portal Infobae, o problema é mais profundo.
“A incursão era necessária, mas as organizações se expandiram há anos. A região está em perigo porque a resposta continua sendo apenas policial.”
Etcharren tem razão. É curioso como essas operações de impacto, com helicópteros, tanques e dezenas de mortos, ganham manchetes fortes, mas raramente resolvem o essencial.
O Rio volta ao mesmo ponto dias depois, e a vida segue como se nada tivesse acontecido.
E é aqui que o olhar argentino ajuda a ver o que muitas vezes passa batido por nós. A distância torna mais evidente o absurdo.
As imagens de corpos nas praças, moradores acuados e escolas fechadas chocam quem lê o jornal em Buenos Aires, mas são rotina para quem vive nas favelas cariocas.
No fim das contas, o saldo é sempre o mesmo: a comunidade trabalhadora é quem paga a conta.
Gente que acorda cedo, enfrenta transporte precário e tenta viver dignamente entre o medo e a indiferença do Estado. São eles, motoboys, diaristas, camelôs, jovens, que carregam o peso das “operações bem-sucedidas” e das manchetes internacionais.
O Rio continua lindo nos cartões-postais e nas fotos de Copacabana. Mas nas manchetes argentinas, e principalmente nas vielas onde o cotidiano é interrompido a tiros, o retrato é outro. E é esse que o Brasil precisa encarar de frente. (Eu amo a cidade e o povo do Rio!)
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