Chegou o mês… e vai começar tudo outra vez

Marina Marquez propõe menos flores e mais reflexão sobre desigualdade, culpa e cobrança.

Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
04/03/2026 às 06h00 Atualizada em 22/04/2026 às 09h40
Marina Marquez - colunista Lead 

Você vai receber chocolates na entrada do trabalho dizendo que “como é doce ser mulher”, vai receber flores de diversos homens no sinal ou na rodoviária para “celebrar a data”, e vai ser inundada por cards no e-mail e no Instagram com o tradicional “parabéns” pelo Dia Internacional da Mulher.

É como se março abrisse a porteira de um ritual pronto, repetido, bem-intencionado no discurso e raso no efeito.

E, talvez, como eu, você vá se questionar todas essas vezes por que insistem em comemorar com mais flores e falatório e menos respeito.

Afinal, enquanto produzem homenagens, eles seguem nos matando, nos diminuindo, nos calando e ainda ganhando mais do que a gente ocupando o mesmo cargo — como se os parabéns fosse um curativo em cima de uma fratura.

Não é homenagem. É distração. Uma distração confortável, porque é mais simples distribuir flores do que rever privilégios; é mais fácil publicar frases bonitas do que sustentar mudanças reais.

Eu trocaria flores, chocolates e parabéns por direitos respeitados. Pelo fim das notícias absurdas sobre feminicídio que lemos todos os dias. Por menos homens nos tribunais decidindo pelas mulheres, por menos homens nas mesas decidindo sobre as mulheres, por menos homens explicando às mulheres o que as mulheres deveriam sentir.

Eu trocaria os parabéns por segurança no caminho de casa, por salário igual, por portas abertas sem a necessidade de desempenho perfeito o tempo inteiro.

Este mês vamos ouvir, mais do que nunca, que o lugar de mulher é onde ela quiser e, se quiser, ela pode tudo. Será mesmo? Não tem muitos dias que uma mulher foi atacada a plenos gritos por estar apitando um jogo de futebol. E não era falta de preparo. Não era falta de competência. Era só a existência dela ocupando um espaço que ainda é tratado como concessão. Basta mesmo querer?

Enquanto eles dizem que podemos fazer tudo que queremos, eu me lembro o quanto a lógica de “poder” fazer tudo é exaustiva. Porque, no papel, isso parece empoderamento, mas, na vida real, costuma funcionar como uma cobrança elegante: você pode tudo, então trate de dar conta; você pode tudo, então não reclame; você pode tudo, então aguente sorrindo.

Pode tudo. Só não pode falhar. Pode tudo. Só não pode cansar. Pode tudo. Só não pode pedir ajuda. E quando a gente não alcança esse “tudo” com a nota 10 que aprendemos a exigir de nós mesmas, a culpa vem com força, como se o problema fosse individual e não estrutural.

Ninguém nos lembra que, para cada escolha, obrigatoriamente existem renúncias.

Para ser a mãe que eu quero, em algum momento eu preciso ser menos profissional. Para ter a carreira que eu sonho, em algum momento deixarei de ser a mãe exemplar.

A cultura que ensina mulheres que elas podem tudo não nos ensina a lidar com o peso da renúncia, a frustração da renúncia, a culpa que a renúncia carrega — e, principalmente, não nos ensina a recusar a fantasia de que dá para existir plenamente em todos os papéis, o tempo inteiro, sem que nada transborde, sem que os pratinhos comecem a despencar das nossas mãos.

Quando alguém te diz que você pode tudo, você se sente mais livre e empoderada, ou mais ansiosa porque é impossível ser esse tudo com a excelência que você espera receber: de você mesma, do mundo, do olhar alheio?

Estar sempre transitando entre funções é cansativo, exaustivo, desesperador. E no fim ainda chamam de “escolha”, como se fosse simples, como se fosse leve, como se não tivesse custo emocional e social.

Por isso, se março vai insistir em vir com flores e frases prontas, eu queria propor uma coisa diferente: que este seja um mês de reflexão, não de aplauso automático.

Que diante da data a gente pare, mesmo que por alguns minutos, para olhar com honestidade para o “você pode tudo” e perguntar o que ele tem cobrado da gente.

Quem você está tentando ser para não decepcionar? Qual renúncia você está pagando sozinha? Talvez o gesto mais importante deste mês vá além de sobreviver às homenagens.

Talvez seja devolver culpas que nunca foram nossas, e escolher existir com menos performance e mais verdade.

Me acompanhe nas redes: @marinammarquez / @avisacomunicacao

 

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JosuéHá 6 meses R. PretoHOMENS LEIAM! OBRIGATÓRIO
Carla Soares Há 6 meses MGMarina, você foi ao ponto sobre o dia 8 “bem-intencionado no discurso e raso no efeito” ótima reflexão
Kleber Cesar Há 6 meses Barra Grande SPBoa tarde, Marina. Hoje, durante o almoço fiz questão de fazer a leitura do seu texto para os meus filhos João e Marciel. Seu texto não é só para as mulheres, as Mães. Como pai acho muito importante reflexões como essa. Precisamos envolver os filhos, os vizinhos, os pais, tios nessa cultura do respeito e da igualdade. Parabéns por nos fazer refletir e melhorar. Por mais textos como o da sua coluna. Abraço
Sergio Ramalho Há 6 meses Brasilia-DFÓtimo texto! Parabéns! Vou divulgar no dia 8! ????????
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Marina Marquez
Marina Marquez
Jornalista, escritora, empresária e mãe de dois. Com mais de 18 anos de trajetória na comunicação, escreve sobre maternidade, rotina, afetos e os desafios da mulher real. Em sua coluna “De mãe para mãe”, compartilha reflexões sobre os encontros e desencontros da maternidade e da vida — sempre com sensibilidade, coragem e um toque de leveza. Acredita que contar histórias é também uma forma de cuidar.
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