Cinquenta anos depois, a Argentina parou para olhar para trás. O 24 de março segue sendo uma data viva, marcada no calendário e, principalmente, na memória coletiva.
Foi nesse dia, em 1976, que os militares tomaram o poder e iniciaram uma ditadura que duraria até 1983. Deixando um rastro de desaparecidos, silêncio e dor que ainda atravessa gerações.
Em Buenos Aires, onde vivo, o clima não foi apenas de lembrança, foi de presença. Desde cedo, era possível ver famílias, jovens e idosos caminhando em direção ao centro. Muitos carregavam fotos, cartazes e lenços brancos.
Não era um público homogêneo, mas havia algo em comum: a necessidade de estar ali, de ocupar a rua como forma de resistência.
A Praça de Maio, onde mães de desaparecidos durante a ditadura se reuniam para dar voltas na pirâmide em frente à sede do governo, voltou a ser o epicentro.
Como acontece todos os anos, mas desta vez com um peso maior, organizações de direitos humanos, sindicatos e movimentos sociais convocaram atos massivos.
No palco, em frente à Casa Rosada, discursos reforçaram palavras que já viraram símbolo no país: memória, verdade e justiça, além do clássico “Nunca Mais”.
O que chama atenção é como o tempo não diminuiu a mobilização. Pelo contrário, meio século depois, a pauta mudou de tom, mas não perdeu força.
Já não se pede apenas o reaparecimento dos desaparecidos, muitos sabem que isso não virá. A cobrança agora é pelo fim do silêncio, pela revelação do que ainda está escondido, pelos corpos que nunca foram encontrados e pelas histórias que seguem incompletas.
Nas ruas, a memória também ganhou novos rostos. Jovens que não viveram a ditadura caminham ao lado de quem carregou esse trauma de perto. Há uma espécie de transmissão silenciosa entre gerações.
Vi adolescentes pintando cartazes, casais com filhos pequenos, grupos de amigos cantando palavras de ordem. A memória aqui não é só passado, é construção contínua.
Outro ponto que marcou o dia foi a presença constante das Mães e Avós da Praça de Maio.
Mesmo com o passar das décadas, elas continuam sendo o símbolo mais potente dessa luta.
Não apenas pela busca dos desaparecidos, mas por terem transformado dor em movimento, e movimento em memória coletiva.
Caminhando pela cidade, a sensação era de que Buenos Aires respirava história.
Havia trânsito interrompido, ruas tomadas e um som contínuo de vozes. Não era um protesto qualquer, era um lembrete de que certos capítulos não podem ser encerrados sem resposta.
Cinquenta anos depois, a Argentina não esqueceu e, pelas ruas cheias que vi, parece que também não pretende esquecer.
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