Quando cheguei aqui em Buenos Aires, fiquei encucado com uma reportagem que tinha lido ainda no Brasil: os argentinos guardam centenas de bilhões de dólares fora do sistema bancário, muitos deles, literalmente em casa, debaixo do colchão. Achei exagero. Mas bastaram algumas conversas por aqui para perceber que não era.
Guardar dólares em casa virou quase uma tradição na Argentina. A inflação crônica, a desvalorização do peso e os sucessivos colapsos econômicos criaram uma cultura de autoproteção. Para muitos, confiar na moeda local ou no sistema bancário é mais arriscado do que esconder dólares entre roupas ou no fundo do armário.
Durante uma ida ao banco para resolver uma questão, a caixa me contou, com naturalidade, que muitos clientes guardam dólares em casa. Fiquei surpreso com o tom casual, como se fosse algo normal. Talvez seja.
Conversei também com Federico, argentino de 43 anos que trabalha com tecnologia. Ele guarda parte das economias em casa. “Não é desconfiança só do governo, é da história toda”, me disse. “Já perdi dinheiro no banco. Com o peso, a gente nunca sabe qual será o valor amanhã. É melhor dormir tranquilo com meus dólares onde eu vejo.”
Estima-se que, no primeiro trimestre de 2025, os argentinos mantinham entre US$ 245 e 267 bilhões fora do sistema financeiro formal, entre dinheiro vivo, cofres particulares e contas não declaradas no exterior. Os valores representam aproximadamente 50% do total de ativos externos da população e superam com folga as reservas internacionais do país.
Para tentar trazer esse dinheiro de volta à economia, o governo lançou uma série de medidas. Já é possível depositar até US$ 85 mil ou transferir até US$ 43 mil sem justificar a origem dos fundos. Além disso, uma espécie de anistia fiscal (conhecida como blanqueo de capitales) permitiu a regularização de até US$ 100 mil por pessoa física, sem cobrança de multas. A medida resultou na entrada de cerca de US$ 20 bilhões no sistema bancário.
Mas o desafio vai além das medidas econômicas. Mesmo após esse esforço, parte do dinheiro voltou a ser sacado e, ao que tudo indica, voltou para o colchão. A desconfiança segue forte. Em entrevista ao jornal La Nación, o economista Ariel Coremberg, professor da Universidad de San Andrés, resumiu o problema: “Na Argentina, os mecanismos de confiança institucional estão severamente danificados. Sem confiança, o dinheiro não circula, se esconde.” Para ele, não basta oferecer vantagens fiscais, é preciso previsibilidade e respeito às regras.
Apesar do blanqueo e das novas liberdades cambiais, o estoque de dólares fora do sistema segue gigantesco, um retrato da memória inflacionária do país e da resiliência de uma cultura financeira baseada na precaução. Se esses dólares vão mesmo sair do colchão e se transformar em crédito, investimento e crescimento, ainda é uma incógnita. O que está em jogo não é só o sucesso de uma política econômica, mas a reconstrução da confiança de um povo que aprendeu, na dor, a confiar mais no dólar do que na própria moeda.