Músculos: a próxima fronteira das canetas emagrecedoras

Em setembro de 2026, especialistas analisam a combinação de agonistas de GLP‑1, como semaglutida e tirzepatida, com agentes experimentais que preservam ou aumentam a massa muscular, como o bimagrumabe. Estudos como o subgrupo do SURMOUNT‑1 e o ens...

Por: Redação Fonte: Agência Dino
16/09/2026 às 17h06
Músculos: a próxima fronteira das canetas emagrecedoras
Imagem Ilustrativa gerada com IA generativa (ChatGPT)

O sucesso de um tratamento para emagrecer precisa ser medido também pelo que o paciente preserva. Perder gordura enquanto se mantém força, mobilidade e autonomia é um objetivo tão relevante quanto reduzir os números na balança. É nesse contexto que uma nova geração de medicamentos voltados à preservação e ao aumento da massa muscular desperta interesse: essas substâncias poderão, no futuro, complementar a ação das chamadas canetas emagrecedoras.

A proposta é combinar mecanismos diferentes. De um lado, medicamentos como semaglutida e tirzepatida ajudam a controlar o apetite e promovem redução de peso. De outro, terapias experimentais procuram atuar sobre mecanismos biológicos que limitam o crescimento muscular. Se os benefícios e a segurança dessa associação forem confirmados, poderemos avançar para tratamentos com maior atenção à qualidade do emagrecimento.

Essa discussão responde a uma questão importante da prática clínica. Durante a perda de peso, o organismo pode perder gordura e também massa magra. Isso ocorre em diferentes estratégias de emagrecimento e exige acompanhamento, sobretudo em pessoas idosas, sedentárias ou que já apresentam pouca reserva muscular.

Um subestudo do SURMOUNT-1, que avaliou a composição corporal durante o tratamento com tirzepatida, observou que aproximadamente 75% do peso perdido correspondia à gordura e 25% à massa magra. Esses números descrevem os resultados daquele grupo, e não uma proporção obrigatória para todos os pacientes. Além disso, massa magra inclui água, órgãos e outros tecidos: sua redução não equivale integralmente à perda de músculo nem demonstra, isoladamente, perda de força.

Por isso, é necessário acompanhar o paciente além da balança. Como está sua alimentação? Há dificuldade para levantar-se de uma cadeira, subir escadas ou executar atividades habituais? A evolução do peso precisa ser interpretada junto da composição corporal e da capacidade física.

Entre as substâncias investigadas nesse novo campo está o bimagrumabe, um anticorpo monoclonal que bloqueia receptores envolvidos na sinalização da activina e da miostatina, proteínas que participam da regulação do crescimento muscular. Sua associação com a semaglutida foi estudada no ensaio de fase 2b BELIEVE, com a proposta de ampliar a redução de gordura e preservar massa magra. Trata-se de uma estratégia experimental, e não de uma indicação estabelecida para uso rotineiro.

A possibilidade de reunir essas duas frentes é promissora. O tratamento da obesidade poderia ganhar um recurso adicional para proteger a reserva muscular enquanto promove perda de gordura. Essa perspectiva merece atenção especial no envelhecimento, quando preservar a capacidade de se movimentar e realizar tarefas cotidianas tem impacto direto na independência.

Entretanto, aumentar a massa muscular em um exame não garante, por si só, melhora de força, equilíbrio ou qualidade de vida. As pesquisas precisam demonstrar benefícios funcionais, esclarecer efeitos adversos e determinar quais pacientes realmente se beneficiam. Também será necessário compreender a duração dos resultados e o que acontece após a interrupção das terapias.

A expressão "caneta para músculos" facilita a comunicação, mas pode criar expectativas que a ciência ainda precisa confirmar. Estamos diante de medicamentos com mecanismos distintos e em desenvolvimento, não de uma solução universal para o envelhecimento ou de um substituto do exercício.

Enquanto essas pesquisas avançam, a proteção muscular já deve integrar o cuidado de quem emagrece. A redução do apetite precisa vir acompanhada de atenção à qualidade da alimentação e à ingestão adequada de proteínas e outros nutrientes. O treinamento de força, adaptado às condições de cada pessoa, também é parte essencial dessa estratégia. Essas medidas integram as recomendações conjuntas de sociedades científicas para apoiar o tratamento da obesidade com terapias baseadas em GLP-1.

Vejo nessa possível associação uma mudança relevante de perspectiva: avaliar cada vez melhor quais tecidos estamos perdendo e quais capacidades estamos preservando. A inovação terá maior valor se ajudar o paciente a reduzir os riscos associados ao excesso de gordura e, ao mesmo tempo, manter força e autonomia.

A próxima etapa do tratamento da obesidade poderá incluir novos medicamentos voltados à saúde muscular. Seu objetivo clínico, porém, já deve orientar nossas decisões de hoje: emagrecer com acompanhamento, preservar a funcionalidade e construir condições para viver melhor.

Dr. Joaquim Menezes é médico especialista em emagrecimento definitivo e longevidade e fundador do Instituto Evollution, em Alphaville.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,15 +0,10%
Euro
R$ 5,91 -0,55%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 415,514,57 +0,48%
Ibovespa
185,465,34 pts -0.56%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade