Estudantes relatam ameaças após final da Copa, em Buenos Aires

Brasileiros que vivem em Buenos Aires dizem ter recebido ameaças de morte após comemorarem a derrota da Argentina.

Por: Eduardo Moura | direto de Buenos Aires
21/07/2026 às 13h41 Atualizada em 25/07/2026 às 17h15
Brasileira afirma ter recebido ameaça de morte após comemorar derrota da Argentina — Foto: Reprodução

 

A derrota da Argentina para a Espanha na final da Copa do Mundo ultrapassou os limites do futebol.

Estudantes brasileiros que vivem em Buenos Aires, capital da Argentina, passaram a relatar ameaças de morte, exposição de dados pessoais, ataques racistas e intimidações nas redes sociais. 

Uma estudante brasileira afirma ter recebido ameaças de morte após comemorar nas redes sociais a derrota da seleção argentina para a Espanha. Por questões de segurança, o nome da universitária será preservado.

A jovem diz que passou a ser alvo de ataques depois de ter sua imagem exibida por um programa da emissora argentina a Crónica TV, nesta segunda-feira (20).

Em uma das postagens, a estudante apareceu usando a camisa da Argentina e brincou que estava “de mufa”, que é uma expressão utilizada no país para se referir a alguém que dá azar. Em outras publicações, comemorou a vitória da seleção espanhola por 1 a 0, na prorrogação.

A emissora também mostrou outros perfis e afirmou que estudantes brasileiros da Universidade de Buenos Aires (UBA) haviam torcido pela Espanha.

A jovem, no entanto, afirma que estuda em uma universidade privada e não na UBA, como foi informado durante a transmissão. Após a exibição, ela relata que teve as redes sociais derrubadas e começou a receber mensagens com ameaças de morte, ofensas racistas e intimidações.

Recebi ameaças de morte, linchamento, dizendo que vão me encontrar na rua e me matar. Acharam o meu documento argentino com o endereço. Até foto de arma recebi. Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa – afirmou.

A universitária pretende registrar as ameaças na polícia, buscar a Embaixada do Brasil em Buenos Aires e avalia adotar medidas judiciais contra a Crónica TV. A emissora até o momento não se manifestou.

Exposição de estudantes nas redes

Entre outros casos está o de uma estudante brasileira de medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA), que teve seus dados pessoais divulgados após uma campanha nas redes sociais.

Entidades estudantis e representantes da comunidade brasileira na Argentina passaram a cobrar providências das autoridades do país para investigar as ameaças virtuais, identificar os responsáveis pela divulgação de dados pessoais e garantir a segurança dos estudantes estrangeiros.

Até o momento, não houve pronunciamento público nem nota oficial do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) ou da Embaixada do Brasil em Buenos Aires sobre os episódios de ameaças e xenofobia.

Enquanto isso, o Consulado-Geral do Brasil em Buenos Aires informou que brasileiros que necessitem de orientação, apoio consular ou intermediação junto às autoridades policiais argentinas podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].

Os relatos são graves. Quem vive no país sabe que esse comportamento não representa a sociedade argentina como um todo. Seria injusto e equivocado generalizar.

A Argentina recebe milhares de brasileiros todos os anos, especialmente estudantes universitários, que constroem amizades, trabalham e fazem parte da vida local.

Mas também é um erro minimizar o problema como se fosse apenas uma troca de provocações entre torcedores.

Como é a lei na Argentina

Na Argentina, casos de discriminação são tratados pela Lei 23.592, que abrange práticas motivadas por raça, religião, nacionalidade, ideologia política, sexo e orientação sexual, entre outros fatores.

A legislação argentina tem foco predominante na reparação civil e prevê sanções penais mais limitadas do que as existentes no Brasil. Penas de detenção podem ser aplicadas em situações relacionadas à propaganda de superioridade racial, mas, segundo a reportagem, o alcance criminal da norma é mais restrito.

No Brasil, a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo. A conduta é inafiançável e pode resultar em pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa.

 

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Eduardo Moura
Eduardo Moura
Jornalista com experiência na cobertura de temas ligados ao Poder Judiciário, política e comunicação institucional. Atuou em veículos como TV Globo, TV Justiça, Record e EBC, além de ocupar cargos de coordenação em órgãos como o Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior Eleitoral. Atualmente, é editor-chefe do portal Lead Notícia.
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