Nos últimos dias, tenho recebido muitas perguntas sobre uma suposta troca do tradicional bife argentino por carne de burro.
Morando em Buenos Aires, dá para perceber que a repercussão foi muito maior do que a realidade. A história existe, mas está longe de representar uma mudança no hábito alimentar do país.
Confesso que a curiosidade bateu. Cheguei até a procurar carne de burro nos açougues perto de casa e também nos restaurantes, mas, pelo menos aqui em Buenos Aires, ainda não encontrei.
CASO ISOLADO
O governo argentino reagiu ao tema. A Casa Rosada afirmou que não há consumo generalizado de carne de burro no país.
Segundo a versão oficial, tudo se resume a uma experiência pontual, conduzida por um produtor no sul da Argentina.
“Tratou-se de um único açougue que comercializou uma quantidade mínima de um produto totalmente alheio aos hábitos alimentares e tradição gastronômica dos argentinos”, segundo a Casa Rosada.
Ou seja, não se trata de uma tendência nacional, nem de uma mudança cultural. Foi um episódio específico que ganhou proporções maiores do que deveria.
Em Trelew, na Patagônia, a degustação e a venda desse tipo de carne ganharam os noticiários do país na última semana.
A experiência, que incluiu um açougue e um restaurante tradicional da cidade, faz parte de um projeto piloto chamado "Burros Patagônicos".
A iniciativa foi criada pelo produtor rural Julio Cittadini, que vinha desenvolvendo a ideia há cerca de dois anos, enquanto aguardava autorização das autoridades sanitárias locais e nacionais.
Após a aprovação, ele levou a proposta a um açougue e a um restaurante tradicional da cidade, onde a novidade rapidamente atraiu público.
O QUE MUDOU NO PRATO
Se existe uma mudança concreta por aqui, ela passa longe do burro. O que se observa é uma substituição mais previsível: frango e carne suína ganharam espaço na mesa dos argentinos.
A lógica é econômica. Com custos mais baixos de produção, essas proteínas se tornaram alternativas mais acessíveis. Enquanto isso, o consumo de carne bovina, símbolo nacional, caiu nos últimos meses.
Os diferentes cortes encareceram, em média, 68,6% em Buenos Aires, Rosário e Córdoba, de acordo com o Ipcva (Instituto de Promoção da Carne Bovina da Argentina).
Já em Trelew, na Patagônia, o quilo da carne de burro é vendido por cerca de 7.500 pesos (cerca de R$ 27), enquanto a bovina pode chegar a 18 mil ou 19 mil pesos (R$ 65 ou R$ 69), quase três vezes mais.
ENTRE FATO E NARRATIVA
Aqui na Argentina, a realidade é mais complexa: há pressão nos preços, mudanças no consumo e debates econômicos intensos.
Mas não há, ao menos por agora, uma revolução no cardápio nacional.
No fim das contas, entre o exagero e o fato, fica uma lição: nem toda manchete traduz o cotidiano. E, definitivamente, o churrasco argentino ainda não saiu de cena. Uma coisa posso dizer: A carne aqui é uma delícia! Vale a pena experimentar.