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O que a morte de Victoria Mafra nos ensina sobre responsabilidade escolar
STJ manda escola pagar R$ 1 milhão por morte da estudante
11/02/2026 13h16 Atualizada há 8 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
Victoria Mafra Natalini

Em setembro de 2015, Victoria Mafra Natalini, então com 16 anos, saiu para uma excursão escolar com colegas da Escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo.

O destino era a Fazenda Pereiras, na região de Jundiaí, onde os alunos participariam de uma atividade curricular prática sobre matemática e topografia. Era uma viagem pedagógica, com objetivos avaliativos.

Não era recreação. Era escola. Era aula.

Victoria não voltou

No quarto dia da viagem, por volta das 14h, ela avisou que iria ao banheiro. Caminhou sozinha por uma estrada de terra até a sede da fazenda, a cerca de 500 metros do local onde o grupo estava. Nunca mais foi vista com vida.

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, a 1,2 km de distância, em direção oposta à que deveria ter seguido. Estava de bruços, com escoriações no corpo.

A causa da morte, segundo primeiro laudo pericial foi inconclusiva. No novo laudo oficial, foi asfixia mecânica por sufocação direta — um indício claro de homicídio.

A escola não percebeu sua ausência de imediato. Só por volta das 16h30 — mais de duas horas depois — um colega perguntou à tutora onde estava Victoria. A busca inicial se limitou aos dormitórios.

pai de Victoria, João Carlos Siqueira Natalini

O Corpo de Bombeiros só foi acionado às 18h04, e não pela equipe da escola, mas por uma cozinheira da fazenda.

Foi o pai de Victoria, João Carlos Siqueira Natalini, quem contactou e solicitou helicóptero da Polícia Militar para sobrevoar a região. Ele mesmo reconheceu o corpo da filha, abandonado no mato.

Onze anos depois, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a escola a pagar uma indenização de R$ 1 milhão à família da estudante.

A decisão levou em conta o patrimônio da instituição e o seguro escolar. A quantia inicial, estabelecida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, era de R$ 400 mil.

Mas nenhuma indenização, nenhuma condenação, nenhum processo judicial será capaz de devolver à família o que foi perdido: o sonho de ver Victoria passando no vestibular, se formando, vivendo o primeiro amor, casando, tendo filhos, vivendo.

A vida seguiu, mas sem ela. E com um trauma que não cicatriza.

Esse caso é um alerta. Um grito. Um chamado à responsabilidade de todas as instituições escolares que organizam atividades fora do ambiente da sala de aula.

local do acampamento - interior de São Paulo

Porque não basta planejar a logística, reservar ônibus, contratar monitores e fazer cronogramas.

É preciso prever o imprevisível. É preciso assumir, com clareza, que a escola está lidando com o bem mais precioso de uma família: seus filhos.

Há erros absurdos na situação apresentada. A permissão para que uma adolescente se afastasse sozinha do grupo. A demora em perceber sua ausência.

A inércia da equipe escolar diante do desaparecimento. A omissão no acionamento das autoridades. A falta de protocolos claros e eficazes.

Tudo isso configura uma sucessão de falhas que, como apontou o ministro relator do STJ, é “assombrosa”.

E aqui, como educadora, preciso dizer: isso poderia ter sido evitado.

Em qualquer atividade externa, é fundamental que haja um checklist básico entre os docentes. Com crianças pequenas, é comum que cada professor ou monitor saiba exatamente quantas e quais crianças estão sob sua responsabilidade.

Com adolescentes, esse cuidado precisa ser ainda maior — apesar de parecer o contrário.

A adolescência é uma fase de intensa busca por identidade, marcada por curiosidade, conflitos internos, desejo de independência e, muitas vezes, comportamentos de risco incentivados pelos pares.

Isso não pode ser colocado na conta do jovem. A responsabilidade é da instituição.

Em atividades escolares externas, cada aluno deve ter um “parceiro”, uma “dupla” ou um “trio”. Como no meio militar, o princípio é simples: ninguém fica para trás.

Redobrar os cuidados

Além disso, é essencial que haja checagens periódicas, previamente acordadas entre os profissionais responsáveis, para verificar a presença dos estudantes. Não basta contar cabeças. É preciso saber quem está ali. E quem está faltando.

Um exemplo simples: em uma visita ao zoológico, cada professor pode ser responsável por um grupo específico de alunos — não apenas numericamente, mas nominalmente. Isso precisa ser acordado antes da saída. Com adolescentes, esse controle deve ser ainda mais minucioso.

A excitação por estar fora da rotina, em um ambiente novo, pode gerar distrações, mas também medos, inseguranças e decisões impulsivas.

Nada disso é novidade. São práticas básicas de segurança e cuidado. Mas, no caso de Victoria, elas foram ignoradas.

A escola sobreviveu ao caos. Certamente com impactos, mas nenhum tão profundo quanto o da família. Nenhum tão devastador quanto o de perder uma filha em uma atividade escolar.

Nenhum tão cruel quanto a sensação de que tudo poderia ter sido evitado.

Este não é um caso isolado. E, infelizmente, não será o último se não houver uma mudança de consciência. A escola não pode tratar excursões como momentos de relaxamento institucional.

Elas são, sim, parte do currículo. Mas são também momentos de vulnerabilidade. E exigem protocolos, responsabilidade, vigilância e, acima de tudo, humanidade.

Fica o aprendizado. Fica a dor. Fica a urgência de fazer melhor.

Porque não estamos lidando com números. Estamos lidando com vidas. Com sonhos. Com futuros que, como o de Victoria, podem ser brutalmente interrompidos.

 

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