Direitos Humanos Mundo
O que realmente estava em jogo no show do Super Bowl
Quando o palco mais vigiado do mundo vira disputa por poder, identidade e quem tem o direito de ocupar o centro.
10/02/2026 14h30 Atualizada há 8 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
Bad Bunny no Super Bowl

O Super Bowl é vendido como entretenimento, mas o show do intervalo é um dispositivo de poder.

Ele não apenas exibe música. Ele define o que pode ser visto como “América”, que língua pode ocupar o centro, que corpo pode ser a referência, que mensagem pode atravessar o evento mais vigiado do planeta.

Por isso, quando Bad Bunny subiu ao palco, o choque não foi “um latino no Super Bowl”. Isso o mercado sabe embalar.

O choque foi outro: ele não entrou como detalhe exótico, entrou como centro, com uma estética e uma linguagem que não pediam permissão.

O show foi lido como celebração e como confronto, e essa dupla leitura é a prova de que não era só música.

A pergunta real foi: quem tem o direito de ser universal?

Quando o padrão é inglês, ninguém chama de política. Quando o espanhol ocupa o centro e não como citação, mas como regra, a palavra “politização” aparece.

Super Bowl

Isso revela o truque: o “neutro” quase sempre é só o nome elegante do dominante.

Só que, neste caso, o alvo não era abstrato. Havia um contexto explícito de disputa em torno de imigração, repressão e medo, e o show operou como resposta.

A crítica à agenda do trumpismo e à lógica do ICE não precisou virar discurso longo para existir. Ela apareceu no clima, nos sinais, no que foi levado para dentro do estádio e no que circulou em torno do evento.

Quando uma parte do país reage como se aquilo fosse uma afronta, o que está sendo defendido não é o “esporte”. É a propriedade do palco.

O gesto mais forte do show foi disputar o significado de “América”. Não como sinônimo estreito de Estados Unidos, mas como continente vivido por línguas, migrações, misturas e sobrevivências. Uma América que não pede desculpas por não caber no molde.

O deslocamento que produz desconforto

E é aí que a reação vira termômetro. A divisão não nasce da música. Nasce do deslocamento do centro. O desconforto não é com a harmonia nem com o ritmo.

É com a mensagem implícita: isto aqui não tem dono. Ou, pior para quem sempre se sentiu dono: isto aqui pode mudar de dono.

É por isso que esse tipo de cena fala tão diretamente com mulheres e com outras minorias. Não porque todas vivam a mesma coisa, nem porque minorias sejam um bloco.

Mas porque existe uma experiência compartilhada, ainda que desigual, de negociar o direito de existir sem punição.

Negociar o tom de voz para não ser punida por existir com intensidade. Negociar a roupa para não ser julgada antes de falar. Negociar a competência para não virar ameaça. Negociar a língua para não ser tratada como estrangeira no próprio trabalho. Negociar o corpo para não ser lido como provocação. Negociar o sotaque, o cabelo, o bairro, a fé, o nome.

Em resumo, negociar o direito de estar.

Para quem vive isso, a cena de um palco gigantesco em que alguém não se reduz produz um efeito raro. Não é idolatria. É reconhecimento.

É ver, por alguns minutos, a ordem do mundo falhar. Falhar no sentido de não conseguir empurrar alguém para o canto.

Quando diversidade deixa de ser marketing

E há um segundo nível, mais duro. O mercado adora diversidade quando ela vira marketing. Uma pitada de diferença, um refrão em outra língua, uma estética domesticada.

Mas diversidade real ocupa orçamento, ocupa tela, ocupa prioridade, ocupa disputa. Quando ocupa, vem a repressão moral com frases educadas.

“Isso não era necessário.”
“Isso divide.”
“Isso não é sobre política.”
“Isso estraga o esporte.”

A frase “não era necessário” é uma polícia. Ela significa: você pode existir, desde que não ocupe demais.

Só que o show foi exatamente sobre ocupar.

E é aqui que a crítica ao trumpismo e ao ICE fica incontornável. Controle não é só prender e deportar. É fabricar medo, até que a pessoa se censure, diminua e aceite a humilhação como preço da segurança.

Mulheres sabem o nome disso.

O objetivo do controle, no fundo, é produzir um mundo em que pessoas vivam com medo suficiente para baixar o volume da própria existência.

Um mundo em que o sujeito agradeça por migalhas de tolerância. Um mundo em que a autocensura pareça prudência. Um mundo em que se “comportar” pareça virtude.

O contra-ato no palco mais vigiado do país

Por isso o show não foi só um show. Foi um contra-ato. Uma recusa de ser reduzido. Uma recusa de pedir licença para existir.

E quando isso acontece no palco mais assistido do país, a reação é inevitável, porque a fronteira treme.

O show acaba em minutos. A disputa não.

No fim, o que ficou não foi apenas uma performance. Foi uma pergunta incômoda, daquelas que não deixam ninguém confortável por muito tempo: quem pode ser centro sem pedir desculpas? Quem pode falar sem traduzir a si mesmo? Quem pode existir sem ser tratado como concessão?

O poder não é só mandar. O poder é definir o que parece normal. E por alguns minutos, o normal mudou de dono.

 

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