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Sharenting e os riscos da exposição infantil
Entre o afeto e o excesso, a educação digital surge como caminho para proteger a infância diante da exposição nas redes sociais.
06/02/2026 06h00 Atualizada há 8 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
vulnerabilidade digital

Quem nunca se derreteu ao ver uma foto fofa de um bebê ou um vídeo engraçado de uma criança nas redes sociais?

Para muitos pais e responsáveis, compartilhar momentos dos filhos é um ato natural de amor, uma forma de manter amigos e familiares próximos, especialmente os que estão distantes.

Eu mesma, em tempos de Orkut, - sim, isso denuncia a idade! - adorava postar as fotos dos meus filhos, acompanhando cada nova descoberta, cada sorriso.

A ideia era simples: apresentar a evolução deles para o mundo que nos cercava, ainda que virtualmente. Naquela época, mal engatinhávamos nessa onda de exposição, e os riscos pareciam distantes, quase inexistentes.

No entanto, o que antes era um gesto inocente de carinho, hoje se transformou em um fenômeno complexo e, muitas vezes, perigoso: o sharenting.

Sharenting: quando compartilhar vira exposição

O termo, que une "share" (compartilhar) e "parenting" (criação/paternidade), descreve a prática de pais ou responsáveis que compartilham excessivamente fotos, vídeos e informações sobre seus filhos nas redes sociais. E, com o tempo, a inocência deu lugar a uma série de questionamentos e alertas.

tecla sharenting

Estudos têm se debruçado sobre as motivações por trás do sharenting. Pesquisadores como Livingstone e Haddon (2009) e Marwick e Boyd (2011) sugerem que os pais compartilham informações para se conectar com entes queridos, documentar a vida dos filhos ou buscar validação social. Livingstone e Helsper (2010) reforçam que a necessidade de conexão social é um motor poderoso.

É a busca por apoio à parentalidade, por afirmação, por manter laços.

Contudo, essa busca por conexão e validação esconde uma série de armadilhas. A exposição excessiva dos filhos nas redes sociais os torna vulneráveis a:

1.O uso indevido da imagem: fotos e vídeos podem ser capturados e utilizados por pessoas com objetivos escusos, desde a criação de perfis falsos até a exploração em contextos inapropriados. uma imagem "graciosa" para os pais pode se tornar um material constrangedor ou perigoso nas mãos erradas.

2.Invasão da privacidade: crianças e adolescentes são titulares de direitos, incluindo o direito à privacidade e à própria imagem. Como apontam Wagner e Veronese (2022), em sua obra sobre o tema, eles não devem ser tratados como meros objetos de intervenção. Aqueles vídeos de crianças chorando, brigando ou gritando, que hoje geram risadas ou visualizações, podem ser uma fonte de profundo constrangimento e sofrimento psicológico no futuro. Imagine-se, adulto, com vídeos de seus momentos mais vulneráveis da infância expostos para o mundo.

3.Vulnerabilidade digital: a conexão com o mundo digital de uma criança começa muito antes dela ter consciência disso. Informações como nome completo, data de nascimento, localização, uniforme escolar e rotina podem ser inferidas a partir do conteúdo compartilhado, expondo-as a riscos como cyberbullying, roubo de identidade e até mesmo sequestro.

Minha própria jornada reflete essa mudança de percepção. Mudei a atitude e sempre analiso as minhas ações no mundo virtual.

Se no Orkut eu compartilhava para a família e amigos, hoje vejo pais usando os filhos como "conteúdo" para ganhar visualizações e seguidores, transformando a infância em uma mercadoria digital.

Essa dicotomia é complexa: um estudo no Reino Unido (Briazu et al., 2021) mostrou que mães informadas continuavam a compartilhar, apesar das preocupações com a privacidade, evidenciando que a necessidade psicológica de interação social pode, por vezes, superar os riscos. Latipah et al. (2020) corroboram, mostrando que o compartilhamento pode ser uma ferramenta de afirmação, mas também fonte de sofrimento devido à comparação social.

Redes sociais, riscos reais e limites necessários

redes sociais 

A preocupação com o sharenting não é exclusividade de pais e educadores. Instituições sérias e governos ao redor do mundo já se manifestam na direção de conter excessos.

Inclusive estão adotando medidas rigorosas para restringir o acesso de menores à internet, focando principalmente em redes sociais para proteger a saúde mental, tais como: Austrália, Dinamarca, China, Estados Unidos (Flórida), França, Noruega. 

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por exemplo, publicou o documento “#Sem Abusos #Mais Saúde - Guia Prático de Atualização”, produzido pelo Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital (SED@SBP). O conteúdo oferece orientações cruciais a pediatras, pais e educadores sobre as tecnologias de informação e comunicação (TICs), redes sociais e Internet, alertando para os prejuízos e danos à saúde física, mental e psicossocial de crianças e adolescentes.

Internacionalmente, a discussão sobre leis específicas para o sharenting avança. Países como a França já possuem precedentes legais que permitem a filhos processar os pais por exposição indevida.

No Brasil, embora não haja uma lei específica, o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em conjunto com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), já oferecem um arcabouço legal para proteger os direitos de personalidade e a dignidade de crianças e adolescentes.

O entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o direito ao esquecimento também é um ponto crucial nesse debate uma vez que aquela corte concluiu que é incompatível com a Constituição Federal a ideia de um direito ao esquecimento que possibilite impedir, em razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos em meios de comunicação.

Educação digital como caminho de proteção

educação digital

Diante desse cenário, a educação se torna a nossa principal ferramenta.

É fundamental educar pais, familiares, cuidadores e as próprias crianças sobre os riscos e as responsabilidades do compartilhamento digital.

Não se trata apenas de pensar no que pode interferir na vida de nossos entes queridos, mas também no que compartilhamos sobre outras pessoas.

O sharenting é um espelho da nossa sociedade conectada. Ele nos convida a refletir sobre o equilíbrio entre o desejo de compartilhar o amor e a vida de nossos filhos e o dever inalienável de proteger sua privacidade, sua dignidade e seu futuro digital.

Que possamos usar as redes sociais com consciência, garantindo que a infância de hoje não se torne o arrependimento de amanhã.

 

 

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