O jogo do Banco Master: três tabuleiros, três equilíbrios e um país olhando para a culpa
Há crises que começam no balanço e terminam no poder.
O caso Banco Master é desse tipo — não porque “tudo é política”, mas porque, quando o risco encosta em previdência pública, passa por banco estatal e chega perto do Supremo, a disputa deixa de ser apenas sobre números. Vira um jogo de coordenação, de responsabilização e de arena.
A teoria dos jogos serve para isso: não para adivinhar “o final”, mas para enxergar o que cada ator tende a fazer quando o outro também está se movendo.
Para evitar confusão: as probabilidades abaixo não competem entre si. Cada uma significa “probabilidade de este tabuleiro se tornar dominante e produzir efeitos relevantes”.
É totalmente possível que os três ocorram ao mesmo tempo: o sistema financeiro contido, RPPS em ebulição e Brasília em disputa de arena.
Contenção financeira (~70% de chance de o sistema ficar contido, em modo defensivo, sem virar pânico generalizado)
O primeiro jogo é o mais clássico: ficar ou correr. Em crise bancária, não é o rombo exato que produz corrida — é o medo de ser o último a perceber o rombo.
Se eu acredito que os outros vão correr, corro também. Se acredito que vão ficar, fico.
É um jogo de coordenação em rede.
É por isso que existe um amortecedor institucional: o Fundo Garantidor de Créditos. O FGC não é só “quem paga”. Ele muda incentivos porque muda crenças: se o investidor acredita que receberá rápido e com previsibilidade, o prêmio de correr diminui.
No caso, o FGC informou pagamentos de R$ 32,5 bilhões e atendimento a 75% dos credores com direito à garantia. Esse tipo de dado não resolve tudo, mas empurra o sistema para o equilíbrio típico de contenção: crédito mais seletivo, prazos menores, aversão a risco — porém sem colapso generalizado.
O sinal de fragilidade desse jogo aparece quando o estresse sai do balanço e entra no cotidiano: meios de pagamento, liquidação, arranjos.
A Reuters noticiou episódio envolvendo liquidação de unidade ligada ao grupo e suspensão de cartões por descumprimento de liquidação. Em jogos de coordenação, esse tipo de evento pesa mais do que deveria, porque é visível e muda rapidamente o “clima” do mercado.
Previdência pública (RPPS) (~65% de chance de a frente RPPS virar o centro do conflito político-fiscal, com apurações em cascata e guerra de responsabilização)
O segundo tabuleiro é o que transforma o caso em economia política. Quando aparecem RPPS (previdência de estados e municípios), o problema deixa de ser “um investidor perdeu” e vira: quem paga o rombo e quem responde por ele.
Previdência pública é promessa moral e compromisso fiscal; por isso, perdas ali quase nunca terminam em silêncio.
Há exposição relevante reportada: imprensa reuniu lista de RPPS com aplicações em Letras Financeiras, somando R$ 1,876 bilhão. E o sinal de que esse tabuleiro tende a esquentar veio do enforcement: a PF deflagrou a operação Barco de Papel mirando a Rioprevidência, com referência a cerca de R$ 970 milhões em aportes investigados.
Em teoria dos jogos, esse tipo de lance muda o payoff de todos os gestores: o custo esperado de inércia sobe; o benefício de “mostrar diligência” explode.
O resultado tende a ser previsível: auditorias internas, sindicâncias, revisão de política de investimentos, judicialização para ressarcimento, disputa sobre quem orientou ou pressionou decisões. Em suma: uma cascata.
Arena institucional (~58% de chance de o caso evoluir para disputa de competência, ritmo e narrativa entre instituições, com alto risco de vazamentos e politização do processo)
O terceiro tabuleiro é típico de Brasília: controlar arena, timing e legitimidade.
Ele aparece quando a disputa deixa de ser apenas “apurar” e passa a incluir “quem manda na apuração”, “qual instância”, “o que vira público e quando”.
Aqui há sinais objetivos de conflito de arena. A entidade representativa dos delegados da PF criticou a atuação do STF na investigação, trazendo o conflito para o plano público.
Há também decisões registradas pelo próprio STF sobre retirada parcial de sigilo de depoimentos e acareação. E existem conexões noticiadas que alimentam narrativa de captura: veículos relataram contrato do escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o banco, em valores elevados.
Em teoria dos jogos, esse conjunto é combustível: quando reputação institucional entra como prêmio, cresce o incentivo para vazamentos seletivos, contra-vazamentos, pedidos de apuração cruzados e guerra de enquadramento moral — transformar a história em um enredo de culpados e inocentes.
A configuração mais plausível é um país vivendo três ritmos ao mesmo tempo: contenção financeira, ebulição previdenciária e disputa institucional.
O risco maior pode não ser “o sistema quebrar”, e sim o caso virar um conflito prolongado de responsabilização e narrativa — com custo fiscal, custo reputacional e custo de confiança.
E, em crises assim, confiança é o ativo mais escasso: quando ela se perde, o crédito encurta, a política endurece e a sociedade passa a exigir não só solução, mas um culpado.
Siga:
.Instagram: @andrelccaval
.YouTube: @andrelc539