Internacional Análise
A crise venezuelana: verdade, mentira e poder
Análise do colunista André Cavalcanti: o que a crise venezuelana revela sobre o nosso tempo
04/01/2026 13h26 Atualizada há 9 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
foto: CARLOS GARCIA RAWLINS

A crise venezuelana costuma ser apresentada como um inventário de dados: hiperinflação, colapso produtivo, sanções internacionais, migração em massa, autoritarismo político.

Tudo isso é real. Mas a insistência exclusiva nos fatos costuma produzir mais ruído do que compreensão.

Não porque os dados sejam irrelevantes, mas porque a política não opera diretamente sobre a realidade. Ela opera sobre verdades.

É por isso que, para compreender a Venezuela, é preciso começar por uma distinção incômoda, mas necessária: realidade não é verdade. E verdade não é o oposto simples da mentira.

A realidade é o conjunto dos fatos materiais, mensuráveis, verificáveis. A verdade é a tentativa de descrever esses fatos a partir de uma perspectiva inevitavelmente atravessada pela subjetividade e pela intersubjetividade.

Já a mentira não é apenas dizer algo falso: é a tentativa deliberada de moldar consciências por meio de distorções dolosas de fatos reais. Essa distinção importa porque sociedades não se organizam apenas em torno do que acontece, mas em torno do que faz sentido.

A verdade histórica que sustenta o chavismo

Nicolas Maduro frente a foto de Hugo Chávez

A narrativa bolivariana nasce de uma verdade histórica concreta. Antes de Chávez, a Venezuela era um país rico em petróleo e pobre em justiça social.

A renda petrolífera concentrava-se em elites, enquanto a maioria vivia à margem.

O Caracazo, em 1989 — repressão violenta a protestos contra medidas de austeridade — cristalizou essa experiência de humilhação social. Quando o chavismo afirma que o liberalismo foi vivido como violência, há verdade aí.

Trata-se de uma leitura situada de fatos reais, a partir da perspectiva dos historicamente excluídos.

Essa verdade organizou afetos poderosos: orgulho popular, desejo de reparação, pertencimento. Durante o boom do petróleo nos anos 2000, ela dialogou com a realidade material: houve redução da pobreza e ampliação do acesso a serviços. O problema começa quando a verdade se cristaliza e deixa de acompanhar a realidade.

Controles rígidos, manutenção da dependência petrolífera, desmonte institucional e, depois de 2014, colapso econômico profundo. Quando a narrativa passa a atribuir toda a crise exclusivamente a sabotagens externas e a silenciar erros internos, ela deixa de ser apenas uma verdade parcial e começa a deslizar para a mentira — não por negar os fatos, mas por reorganizá-los para produzir adesão e medo.

A oposição e os limites de sua narrativa

A oposição venezuelana também se ancora em verdades reais. A hiperinflação, a migração forçada de milhões de pessoas, o colapso de serviços básicos e a destruição do horizonte de futuro são fatos incontornáveis.

posto de petroléo na Venezuela

Descrevê-los como resultado de decisões estatais desastrosas e autoritarismo é uma tentativa legítima de verdade. Mas essa narrativa se empobrece quando abstrai a história e transforma “o Estado” ou “o socialismo” em explicações totais, ignorando a formação rentista do país e o impacto real das sanções.

A mentira aparece quando o sofrimento passa a ser tratado como custo necessário de uma ruptura desejada, reorganizando a dor social como instrumento político.

A narrativa americana completa esse triângulo. Ela também parte de fatos reais: corrupção, economias ilegais, instabilidade regional. Mas opera um deslocamento decisivo quando transforma o tráfico em terrorismo, personaliza o conflito em Nicolás Maduro e moraliza a política externa.

Nomear traficantes como terroristas não é apenas uma escolha semântica: é um salto jurídico e moral que legitima exceções, sanções severas e a ideia de mudança de regime como missão ética. Aqui, a mentira não está em afirmar que há crime ou autoritarismo, mas em reorganizar esses fatos para tornar interesses geopolíticos — como o controle energético — invisíveis e incontestáveis.

Verdades em disputa e assimetrias de poder

O que essas três narrativas revelam é uma simetria incômoda: todas selecionam fatos reais, organizam-nos moralmente, produzem verdades subjetivas e silenciam o que ameaça suas identidades. A diferença não está na lógica, mas na posição de poder de cada ator.

É aqui que emerge uma das lições mais duras do nosso tempo: a verdade é mais constitutiva que a realidade. A realidade pode colapsar, mas, se a verdade continuar produzindo sentido, pertencimento e identidade, ela sustenta sujeitos e sociedades.

Pessoas suportam privações extremas quando acreditam que seu sofrimento faz parte de uma história justa, de uma resistência necessária ou de uma redenção futura.

O preço disso é alto. Quando a verdade se transforma em identidade, ela se torna imune à correção. O erro vira traição, a dúvida vira ameaça, a complexidade vira inimiga. As crises deixam de ser problemas a resolver e passam a ser modos de existência.

Talvez o desafio político mais profundo hoje não seja descobrir “quem tem razão”, mas perguntar: que verdades precisam ser mantidas para que esse conflito continue fazendo sentido?

Enquanto essas verdades seguirem organizando afetos e pertencimentos, a realidade — mesmo em ruínas — continuará sendo administrável. E é justamente aí que subjetividade e poder se encontram de forma mais perigosa.

 

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