O noticiário esportivo recente trouxe à tona a negociação de Filipe Luís, ex jogador, técnico e ídolo do Flamengo, para a renovação de seu contrato.
Nesta segunda-feira (29), a novela chegou ao fim: o Flamengo confirmou oficialmente a renovação contratual do treinador.
Após uma excelente campanha em 2025 com resultados expressivos para o Clube, o pedido de um salário de R$ 5 milhões, mesmo que para um profissional de seu calibre e histórico, acende um alerta sobre a percepção do sucesso no futebol e a realidade do nosso país.
Esse valor, um verdadeiro “ponto fora da curva”, alimenta a crescente demanda pelo sonho de ser um atleta bem pago, um fenômeno que se reflete na explosão de escolinhas de futebol e na esperança depositada em milhares de crianças.
Como mãe de um atleta, Ivan Moulin, que teve a oportunidade de jogar uma temporada na Europa, conheci de perto as grandes expectativas criadas em meu filho, os sonhos realizados e as grandes frustrações.
É importante notar que o sonho do jogador nem sempre é a fama, mas isso, infelizmente, muitas vezes é cultuado pelos pais.
Lembro que, por trabalhar muito, nem sempre conseguia acompanhar meu filho nos jogos e campeonatos.
No entanto, quando o fazia, percebia que eu não fazia parte do grupo de pais que investiam toda sua expectativa em seus filhos como “grandes jogadores”. Assustava-me com o comportamento de alguns em jogos.
Familiares que dedicavam quase todo o tempo para mergulhar no universo dos campeonatos e jogos. Observei a ira e a sede de resultados nas olhos de muitos. E isso, acreditem, é um enorme fardo para as crianças.
O que sempre reforcei para meu filho é que, percentualmente, pouquíssimos chegam ao patamar de salários de milhares ou milhões. Por essa razão, isso não deveria ser seu foco, mas sim fazer o seu melhor sempre.
O resultado vem, mas nem sempre em forma de cifrões ou grandes contratos com clubes renomados. Não podemos, portanto, nutrir nossos filhos de uma expectativa alta e fora da realidade.
Muitos podem achar que isso é frustrar planos ou ir contra a tão famosa “lei da atração”. Mas, vamos a um choque de realidade em números?
O Brasil, conhecido como país do futebol por sua conexão cultural com o esporte, possui um vasto número de clubes, mas a pirâmide é íngreme.
Atualmente, temos 20 times na Série A, 20 na Série B e 20 na Série C. Quantos jogadores atuam nessas 60 equipes? E, mais importante, quantos estão tentando chegar a uma Série C, por exemplo?
Para ilustrar a disparidade, basta comparar as folhas de pagamento. Confira a arte:
É nesse contexto que incontáveis jovens, matriculados em escolinhas de futebol (apenas o Flamengo, por exemplo, mantém mais de 200 unidades oficiais espalhadas pelo Brasil), alimentam o sonho de conquistar salários de quatro ou cinco dígitos. Contudo, a jornada é árdua.
Atingir esse patamar frequentemente exige que os pais possuam recursos para investir pesadamente em uma rotina de treinos rigorosa, participação em jogos e campeonatos, nutrição adequada e a contratação de empresários.
Além de todo o esforço, há ainda o inegável fator sorte: o encontro decisivo com o "homem certo no lugar certo" e a atenção dos olheiros, verdadeiros "caçadores" de novos talentos.
Assim, para transformar o sonho em carreira, é preciso dedicação extrema, disciplina, resiliência e foco em treinamento, estudo tático e gestão de imagem, para além do talento original do atleta. É fundamental, portanto, gerenciar expectativas e entender que o glamour é para poucos, e que o caminho é árduo.
Crianças, às vezes, deixam de amar a arte do futebol por se verem como a possibilidade da família de ter resultados financeiros e mudar a vida de muitos.
Isso é muita responsabilidade para ser colocada na cabeça e nos ombros de uma criança.
Além disso, as estatísticas mostram que poucos conseguem, o que reforça a necessidade de cautela.
É preciso, portanto ter um cuidado entre a tênue linha de incentivo aos sonhos e exigências extenuantes com foco em responsabilização da criança por seus insucessos.
Um bom exemplo desse cuidado foi a impactante campanha lançada pela Federação Paulista de Futebol (FPF), direcionada aos pais de crianças que disputam campeonatos estaduais de base.
A iniciativa consistiu em um vídeo que simulava o comportamento agressivo de familiares em jogos infantis do Paulistão. Nele, alguns pais eram convidados a ler frases como "você não acerta uma, seu burro", que supostamente seriam ditas a crianças por professores em sala de aula.
Ao final, contudo, eles descobriam que tais frases foram proferidas por pais e familiares em jogos das categorias de base. A pergunta que enfocada era um soco no estômago: "Por que na escola não pode e no futebol pode?".
Essa campanha nos convida a uma profunda reflexão: o futebol deve ser, acima de tudo, um espaço de desenvolvimento, alegria e aprendizado.
Como desdobramento, em setembro de 2025, a FPF implementou a campanha "Pais de Castigo", que proibiu a presença de pais e torcedores em rodadas dos campeonatos sub-11 e sub-12 pelo mesmo motivo original, o comportamento inadequado dos familiares/responsáveis. (Assista ao final do texto os dois vídeos da campanha)
As situações apresentadas geram um impacto emocional complexo e muitas vezes devastador para as crianças.
De um lado, elas anseiam pela presença e apoio de seus responsáveis em momentos cruciais de suas vidas, buscando nos pais e familiares a segurança e o incentivo que são fundamentais para o desenvolvimento e a autoconfiança.
A ausência ou a proibição da presença desses adultos pode ser sentida como abandono ou falta de reconhecimento, gerando frustração e tristeza.
Contudo, a necessidade de proteção se sobrepõe quando esses mesmos adultos, que deveriam ser os pilares de apoio e os primeiros a zelar pelo bem-estar infantil, tornam-se a fonte de pressão, agressão verbal e estresse.
Nesse dilema, os clubes se veem na difícil, mas essencial, posição de intervir para salvaguardar a saúde mental e a paixão pelo esporte dessas crianças, no enfoque que o futebol permaneça um espaço de alegria, aprendizado e desenvolvimento saudável, livre da toxicidade que alguns comportamentos adultos podem gerar.
Precisamos ensinar que o sonho de ser atleta é legítimo e deve ser incentivado, mas sempre com os pés no chão, com amor ao esporte e, principalmente, com a proteção da infância e do bem-estar de nossos filhos.
Que o exemplo do Técnico Filipe Luís e de tantos atletas que chegaram ao topo, continue a inspirar a dedicação, mas que a realidade dos números nos ajude a construir sonhos mais saudáveis e sustentáveis para as futuras gerações do país do futebol.
Assista aos dois vídeos das campanhas:
Siga: .Instagram: @prof.alemoulin
.YouTube: @draalessandramoulin
.Podcasts: Conexões Verbais
>Clique aqui para seguir o Lead Notícia no WhatsApp
A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].