Quando falamos em educação, muitas vezes pensamos apenas em escola, currículo, professores ou métodos de ensino. Mas educação é, antes de tudo, um processo de formação humana.
O modo como aprendemos a ver o outro, a dialogar, a compreender diferenças e, principalmente, a conviver com elas.
É justamente por isso que episódios como o recente ataque verbal de Zezé Di Camargo às herdeiras do SBT ultrapassam o campo do mero entretenimento e opinião e invadem diretamente o campo da educação e do exemplo social.
O sertanejo, que é pai de mulheres, dirigiu termos ofensivos às filhas de Silvio Santos após discordar da presença de autoridades políticas no evento de lançamento do SBT News.
Mas aqui está o ponto: não se tratava de um comício, nem de um palanque partidário.
Era a inauguração de um canal de jornalismo, um espaço que naturalmente reúne representantes de diferentes poderes e partidos porque a função do jornalismo é justamente informar sobre a pluralidade do país.
Ao ridicularizar mulheres em público, por discordância política, o cantor dá um exemplo que vai muito além da política: ensina que, diante do incômodo, vale atacar, desrespeitar e reduzir o outro (especialmente mulheres) a caricaturas. E isso não é liberdade de expressão; isso é descuido ético, é ferir honra e integridade.
Liberdade de expressão existe para sustentar o debate de ideias, não para legitimar agressões pessoais.
Nesse sentido, a carta aberta publicada por Daniela Beyruti, presidente do SBT, foi madura, serena e necessária.
Ela reforçou que o projeto do SBT News busca justamente o equilíbrio: entregar jornalismo confiável, sem viés partidário, sem alimentar ódio e sem se curvar a pressões políticas.
E lembrou algo essencial: o evento reuniu políticos de diversas linhas, inclusive figuras que possivelmente concorrerão entre si nas próximas eleições.
Ou seja, não havia exclusividade ideológica; havia pluralidade. Havia democracia.
Educar não é só ensinar conteúdos. É ensinar autocontrole, responsabilidade nas palavras, consideração pelo impacto das próprias ações. É ensinar que opiniões podem (e devem) existir, mas precisam vir acompanhadas de respeito.
Quando adultos se comportam como crianças pequenas, recusando-se a dividir espaços com quem pensa diferente, estamos diante de um retrocesso emocional.
Birra, afinal, é um comportamento típico de uma mente cujo córtex pré-frontal ainda está em formação. Em adultos, é falta de maturidade democrática.
E é preocupante quando figuras públicas, por sua notoriedade, utilizam sua voz para amplificar intolerância. Pessoas com alcance nacional carregam consigo a responsabilidade de pensar antes de falar, justamente porque influenciam milhões que, muitas vezes, absorvem discursos sem reflexão crítica.
Pais educam pelo exemplo. Famílias educam pelo tom das conversas. A sociedade se educa pelo modo como reagimos a conflitos. Por isso, vale a reflexão: como as filhas de Zezé receberam a forma como ele tratou outras mulheres?
E como pais e filhos, em geral, aprendem a lidar com tensões políticas quando seus modelos adultos usam ataques como instrumento?
Se queremos mesmo superar a polarização, precisamos reaprender a conversar. A debater sem destruir. A discordar sem desumanizar. A defender nossos ideais com firmeza, mas também com ética e valores. A educação que queremos ver nas escolas começa em casa e continua nas ruas, na internet, nos discursos e nos exemplos.
Não precisamos concordar uns com os outros. Mas precisamos, com urgência, reaprender a respeitar.
Este é um convite para pais, filhos e cidadãos: conversem sobre a cultura do ódio. Questionem comportamentos, inclusive os próprios. Cultivem tolerância. O Brasil não precisa ser uniforme - só precisa ser mais adulto.
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