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Argentina discute eliminar a figura do feminicídio do Código Penal
O colunista Eduardo Moura detalha o avanço da proposta do governo Milei e o impacto simbólico e institucional desse desmonte.
12/12/2025 14h42 Atualizada há 10 meses
Por: Eduardo Moura | direto de Buenos Aires
Casa Rosada - sede do governo Argentino

Diante da sequência de feminicídios no Brasil nos últimos dias, decidi olhar para o cenário daqui de Buenos Aires.

A comparação é inevitável e, de certa forma, perturbadora.

Enquanto no Brasil governo, Congresso e Judiciário discutem maneiras de reforçar mecanismos de prevenção e punição, na Argentina o movimento é o oposto.

O governo Javier Milei já sinalizou a intenção de eliminar a figura do “femicídio” do Código Penal, retirando da lei a categoria que reconhece o assassinato de mulheres por razões de gênero.

A explicação

A ideia central dos defensores da mudança é substituir esse tipo penal específico por uma classificação mais genérica de homicídio qualificado, sob o argumento de que “todos os crimes devem valer o mesmo, independentemente do sexo da vítima”.

Na prática, porém, segundo especialistas, retirar o femicídio significa apagar da legislação a motivação de gênero, reduzindo a capacidade do Estado de reconhecer, medir e punir adequadamente esse tipo de violência, justamente o motivo pelo qual o conceito foi criado.

A proposta ganhou força na última semana e reacendeu o debate sobre o lugar das políticas de gênero no país. Esse debate não ocorre no vazio.

Dados importantes

Obelisco - centro de Buenos Aires 

Segundo dados divulgados pela Oficina de la Mujer da Corte Suprema, órgão responsável por produzir estatísticas oficiais sobre violência de gênero, em 2024 a Argentina registrou uma vítima de femicídio a cada 39 horas.

Nesse cenário, ganham ainda mais peso as vozes das organizações de direitos humanos.

Entre elas está o Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS), uma das instituições mais respeitadas da Argentina.

A coordenadora da agenda feminista do CELS, Lucía Vega, afirma que o país vive, desde a posse de Milei, um processo de “vaciamiento institucional”.

De acordo com Lucía Vega, trata-se de um esvaziamento das políticas de gênero e cuidado, impulsionado por cortes, desarticulação e desfinanciamento de programas que sustentavam a proteção às vítimas.

Brasil X Argentina

ilustração 

Enquanto isso, no Brasil, a discussão pública segue por outro caminho.

O país ainda enfrenta dificuldades importantes, como a escassez de delegacias especializadas em muitas regiões e a incapacidade do sistema de Justiça de responder com rapidez e sensibilidade aos casos de violência contra mulheres.

Mesmo assim, há um entendimento básico entre governo, Legislativo e Judiciário de que é preciso avançar e aprimorar os mecanismos de proteção.

Na Argentina, porém, a sensação é oposta.

Comparar os dois países não é um exercício acadêmico. É um lembrete de que políticas públicas não nascem do acaso. Elas são escolhas e, no momento, Brasil e Argentina estão escolhendo caminhos divergentes. 

Vivendo aqui, acompanhando de perto a reação de ONGs, pesquisadoras e especialistas, fico com a sensação de que a Argentina está abrindo mão de uma conquista que custou décadas de luta. Justamente num momento em que as mulheres seguem morrendo. O mínimo que o Estado deveria fazer é preservar as ferramentas que já existem para protegê-las.

 

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