Essa semana, as ruas brasileiras foram tomadas por mulheres que pediam o mínimo: não serem assassinadas.
Parece absurdo escrever isso em 2025. Mas mais absurdo ainda é perceber que, enquanto elas marcham para sobreviver, nós, homens, seguimos presos a uma masculinidade tão pobre, tão frágil e tão mal resolvida que transforma nossa própria insegurança em arma.
E aqui vai a verdade desconfortável: não existe violência contra mulheres sem homens.
E essa cultura formou homens como nós para sermos, no sentido mais profundo, estrutural e político do termo: babacas.
Sim, babacas. Porque o babaca não é apenas o inconveniente ou o arrogante.
O babaca é o homem que se sente autorizado — pela cultura, pela religião, pela família, pelo Estado — a transformar qualquer frustração em domínio.
Desde pequenos aprendemos que:
• sentir é fraqueza,
• desejar é direito,
• ser contrariado é humilhação,
• mulher existe para validar, acalmar, servir e ceder,
• e que nossa identidade depende de controlar alguém.
Isso não é acidente. É projeto!
Já vimos nesta coluna que o ressentimento cria moralidades inteiras. E que o poder mais violento é aquele que o sujeito acredita ter por natureza. As coisas casam aqui, né?
Resultado? O homem brasileiro médio — o cara “normal”, trabalhador, religioso, decente — aprende a reagir ao mundo como um babaca autorizado, convicto de que sua dor é mais importante do que a vida das mulheres.
A violência não começa no ato. Começa muito antes.
Começa quando o menino aprende que:
• tem direito à atenção feminina,
• sua frustração é justificativa para punir,
• seu ciúme é prova de amor,
• sua insegurança é problema dos outros,
• suas emoções mal resolvidas são responsabilidade das mulheres.
O babaca é esse sujeito: o homem emocionalmente analfabeto que transforma medo, rejeição ou vergonha em agressão.
E o feminicida é apenas o babaca levado ao extremo — sustentado por uma sociedade inteira que protege, perdoa, normaliza e até glorifica esse modo de existir.
Divisão de tarefas é higiene básica.
Vamos ao que importa:
• O babaca acha que pode interpretar o corpo das mulheres
Quem é “direito”, quem “provocou”, quem “mereceu”.
• O babaca acha que pode regular a sexualidade feminina
Porque não suporta a ideia de não ser o centro do desejo.
• O babaca depende que a mulher cuide do seu emocional
E quando ela não corresponde, vira agressor.
• O babaca acha que sua dor autoriza destruição
É a lógica infantil de quem não aprendeu a perder.
• O babaca acredita na própria inocência
E diz: “não sabia que isso era violência”, quando o que ele nunca fez foi ouvir mulheres de verdade.
1. Admitir que fomos educados para ser babacas: Não é exceção. É regra.
2. Encarar o medo da mulher livre: O babaca teme mulheres que não dependem dele — porque isso desmonta sua fantasia de importância.
3. Perder o privilégio da inocência masculina: A frase “eu não sou machista” é a camuflagem preferida do babaca contemporâneo.
4. Falar com outros homens: Babacas se multiplicam no silêncio dos “não sou assim”.
5. Reaprender o que significa amar: Babaca não ama: ele administra território emocional.
As mulheres não querem proteção. Querem liberdade, querem justiça, querem viver sem medo do próximo babaca que a sociedade está criando.
Nós só vamos honrar o que elas pedem quando tivermos coragem de admitir que:
Crescemos inseguros, crescemos ressentidos, crescemos frágeis, crescemos violentos, crescemos babacas.
E só desmontando essa masculinidade inteira — não maquiando, não reformando — é que construiremos um mundo onde mulheres não precisem mais fugir, protestar, gritar ou morrer.
Porque, no fundo, o que sustenta o feminicídio não é o monstro. É o babaca comum. E é esse que precisa acabar.
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