Comportamento Alerta
Crescemos aprendendo a ser babacas — e as mulheres pagam com a vida
O colunista André Cavalcanti revela como a masculinidade brasileira produz, sustenta e normaliza o “babaca comum” que alimenta a violência contra mulheres.
11/12/2025 06h00 Atualizada há 10 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
ilustração !

Essa semana, as ruas brasileiras foram tomadas por mulheres que pediam o mínimo: não serem assassinadas.

Parece absurdo escrever isso em 2025. Mas mais absurdo ainda é perceber que, enquanto elas marcham para sobreviver, nós, homens, seguimos presos a uma masculinidade tão pobre, tão frágil e tão mal resolvida que transforma nossa própria insegurança em arma.

E aqui vai a verdade desconfortável: não existe violência contra mulheres sem homens.

E essa cultura formou homens como nós para sermos, no sentido mais profundo, estrutural e político do termo: babacas.

A masculinidade brasileira fabrica babacas que se acham gigantes

Sim, babacas. Porque o babaca não é apenas o inconveniente ou o arrogante.

O babaca é o homem que se sente autorizado — pela cultura, pela religião, pela família, pelo Estado — a transformar qualquer frustração em domínio.

tóxico 

Desde pequenos aprendemos que:

• sentir é fraqueza,

• desejar é direito,

• ser contrariado é humilhação,

• mulher existe para validar, acalmar, servir e ceder,

• e que nossa identidade depende de controlar alguém.

Isso não é acidente. É projeto!

Já vimos nesta coluna que o ressentimento cria moralidades inteiras. E que o poder mais violento é aquele que o sujeito acredita ter por natureza. As coisas casam aqui, né?

Resultado? O homem brasileiro médio — o cara “normal”, trabalhador, religioso, decente — aprende a reagir ao mundo como um babaca autorizado, convicto de que sua dor é mais importante do que a vida das mulheres.

O feminicídio não começa no extremo — começa no babaca cotidiano que fomos treinados a ser

A violência não começa no ato. Começa muito antes.

Começa quando o menino aprende que:

babaca!

• tem direito à atenção feminina,

• sua frustração é justificativa para punir,

• seu ciúme é prova de amor,

• sua insegurança é problema dos outros,

• suas emoções mal resolvidas são responsabilidade das mulheres.

O babaca é esse sujeito: o homem emocionalmente analfabeto que transforma medo, rejeição ou vergonha em agressão.

E o feminicida é apenas o babaca levado ao extremo — sustentado por uma sociedade inteira que protege, perdoa, normaliza e até glorifica esse modo de existir.

Não quero falar de lavar louça; quero falar do babaca que mata

Divisão de tarefas é higiene básica.

Vamos ao que importa:

• O babaca acha que pode interpretar o corpo das mulheres

  Quem é “direito”, quem “provocou”, quem “mereceu”.

• O babaca acha que pode regular a sexualidade feminina

  Porque não suporta a ideia de não ser o centro do desejo.

• O babaca depende que a mulher cuide do seu emocional

  E quando ela não corresponde, vira agressor.

• O babaca acha que sua dor autoriza destruição

  É a lógica infantil de quem não aprendeu a perder.

• O babaca acredita na própria inocência

  E diz: “não sabia que isso era violência”, quando o que ele nunca fez foi ouvir mulheres de verdade.

O que um homem precisa fazer? Primeiro passo: parar de ser babaca

alerta! aprenda!

1. Admitir que fomos educados para ser babacas: Não é exceção. É regra.

2. Encarar o medo da mulher livre: O babaca teme mulheres que não dependem dele — porque isso desmonta sua fantasia de importância.

3. Perder o privilégio da inocência masculina: A frase “eu não sou machista” é a camuflagem preferida do babaca contemporâneo.

4. Falar com outros homens: Babacas se multiplicam no silêncio dos “não sou assim”.

5.  Reaprender o que significa amar: Babaca não ama: ele administra território emocional.

 Ficar ao lado das mulheres não é defendê-las. É parar de ser ameaça.

As mulheres não querem proteção. Querem liberdade, querem justiça, querem viver sem medo do próximo babaca que a sociedade está criando.

Nós só vamos honrar o que elas pedem quando tivermos coragem de admitir que:

Crescemos inseguros, crescemos ressentidos, crescemos frágeis, crescemos violentos, crescemos babacas.

E só desmontando essa masculinidade inteira — não maquiando, não reformando — é que construiremos um mundo onde mulheres não precisem mais fugir, protestar, gritar ou morrer.

Porque, no fundo, o que sustenta o feminicídio não é o monstro. É o babaca comum. E é esse que precisa acabar.

 

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