.Educação Digital
Neurociência: crianças e redes sociais
A colunista Alessandra Moulin analisa o crescimento da pressão global por limites digitais: o que diz a Neurociência sobre crianças e redes sociais
08/12/2025 06h00 Atualizada há 10 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
adolescentes no digital

Nos últimos anos, a pressão global por medidas que protejam crianças e adolescentes no ambiente digital tem se intensificado, impulsionada por uma crescente preocupação com os efeitos das redes sociais sobre a saúde mental e o desenvolvimento emocional dos jovens.

Países como Dinamarca e Austrália vêm liderando iniciativas para restringir o acesso de menores a plataformas digitais, enquanto no Brasil o debate começa a ganhar corpo, especialmente diante de dados alarmantes sobre o aumento de transtornos psicológicos entre adolescentes.

No centro dessa discussão está a compreensão de que o cérebro humano, em especial o córtex pré-frontal — responsável pela regulação das emoções, controle dos impulsos e tomada de decisões — ainda está em formação durante a infância e adolescência, o que torna esse público especialmente vulnerável aos estímulos intensos e constantes do mundo digital.

Estudos em neurociência demonstram que o córtex pré-frontal só atinge plena maturidade por volta dos 25 anos de idade. Essa região do cérebro é essencial para o desenvolvimento da autorregulação emocional, da empAitia e da capacidade de lidar com frustrações.

No entanto, o ambiente digital, com sua lógica de gratificação instantânea, algoritmos que reforçam bolhas de pensamento e conteúdos altamente emocionalizados, interfere diretamente nesse processo de amadurecimento.

Segundo um relatório de 2023 da Organização Mundial da Saúde (OMS), os casos de ansiedade e depressão entre adolescentes aumentaram em mais de 25% desde 2010, coincidindo com a popularização dos smartphones e o uso massivo de redes sociais.

Dados: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2022

Essa dificuldade de autorregulação emocional entre os jovens não é um problema de caráter ou de falta de disciplina, mas sim uma consequência direta do estágio de desenvolvimento cerebral em que se encontram.

Esperar que uma criança de 11 ou 12 anos tenha discernimento para lidar com a pressão estética, o cyberbullying, a comparação social constante e a exposição a conteúdos violentos ou sexualizados é ignorar completamente o que a ciência já comprovou sobre o funcionamento do cérebro em desenvolvimento.

A própria estrutura das redes sociais, com notificações constantes, recompensas variáveis e mecanismos de engajamento baseados em dopamina, foi desenhada para capturar e manter a atenção — algo que adultos já têm dificuldade em resistir, quanto mais crianças.

Diante desse cenário, países como a Dinamarca vêm adotando medidas concretas. Em 2023, o governo dinamarquês implementou diretrizes que obrigam plataformas digitais a verificar a idade dos usuários e limitar o acesso de menores a determinados conteúdos. Além disso, investiu em programas escolares de educação digital e emocional, com foco no desenvolvimento da empAitia, pensamento crítico e habilidades de autorregulação.

A Austrália, por sua vez, propôs a criação de um sistema nacional de verificação de idade para o acesso a redes sociais, além de considerar a imposição de limites de tempo de uso para menores de 16 anos. Essas medidas são baseadas em evidências científicas e refletem uma mudança de paradigma: proteger não é censurar, é reconhecer que o desenvolvimento emocional precisa de tempo, orientação e limites.

criança na internet

No Brasil, o debate ainda está em estágio inicial, mas começa a ganhar força. Projetos de lei que propõem a verificação de idade e a responsabilização das plataformas por conteúdos nocivos a menores estão em tramitação no Congresso Nacional.

Ao mesmo tempo, cresce o movimento de educadores, psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil que defendem uma abordagem mais integrada, que combine regulação com educação.

Afinal, a proteção efetiva não virá apenas de leis, mas também da formação de uma cultura digital mais consciente, crítica e empática.

Nesse contexto, a educação emocional e digital torna-se uma ferramenta indispensável. Ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e nomear emoções, lidar com frustrações, desenvolver empAitia e senso crítico é tão essencial quanto alfabetizá-los.

Iniciativas como o programa de competências socioemocionais da rede municipal de Sobral (CE), que já colhe resultados positivos na redução de conflitos escolares e melhoria do clima emocional nas escolas, mostram que é possível formar jovens mais preparados para lidar com os desafios do mundo online.

A escola, em parceria com as famílias, deve ser um espaço de formação integral, onde o uso da tecnologia seja mediado e contextualizado, e não entregue ao acaso dos algoritmos.

A urgência desse debate também tem sido retratada em obras audiovisuais que escancaram os bastidores da indústria digital. O documentário “O Dilema das Redes” (The Social Dilemma, 2020), da Netflix, traz depoimentos de ex-executivos do Google, Facebook e Twitter, revelando como as plataformas são projetadas para manipular o comportamento dos usuários, especialmente os mais jovens.

Assista ao trailer do documentário O Dilema das Redes:

Já o filme “Geração Z” (The Social Experiment, 2023), baseado em casos reais, mostra o impacto devastador do cyberbullying e da cultura da comparação na vida de adolescentes. Essas produções ajudam a traduzir em linguagem acessível o que a ciência já vem alertando há anos: estamos colocando crianças em um ambiente para o qual elas ainda não estão neurologicamente preparadas.

Portanto, a crescente pressão global por medidas de proteção no ambiente digital não é apenas uma reação moralista ou conservadora, mas uma resposta fundamentada em evidências neurocientíficas e dados de saúde pública. Considerar a maturidade emocional e o desenvolvimento do córtex pré-frontal é essencial para compreender por que crianças e adolescentes são mais suscetíveis aos efeitos nocivos das redes sociais.

A autorregulação emocional não é inata — ela precisa ser cultivada com apoio, orientação e limites claros. Dinamarca e Austrália mostram que é possível avançar com políticas públicas que equilibram liberdade e proteção.

O Brasil, por sua vez, tem a oportunidade de aprender com essas experiências e construir um modelo próprio, que leve em conta suas especificidades culturais e sociais. Mais do que restringir, é preciso educar — e proteger, com base na ciência, no cuidado e no compromisso com o futuro das novas gerações.

 

Clique aqui e ouça o podcast 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Siga:  .Instagram: @prof.alemoulin 
           .YouTube: @draalessandramoulin 
           .Podcasts: Conexões Verbais

 

Clique aqui para seguir o Lead Notícia no WhatsApp

 

A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].