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O papel da escola contra a violência de gênero
A colunista Alessandra Moulin alerta para como dois episódios recentes revelam a naturalização da violência de gênero no Brasil e expõem uma cultura que legitima o controle e a brutalidade contra mulheres.
05/12/2025 11h14 Atualizada há 10 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
agressão 

Na mesma sociedade em que um influenciador ganha fama desumanizando mulheres em vídeos, uma mãe de duas crianças é atropelada e arrastada por um quilômetro por um ex-companheiro e tem as duas pernas amputadas.

Esses episódios, embora diferentes em forma, pertencem à mesma história: a da violência de gênero que o Brasil insiste em naturalizar.

Na noite do dia 28 de novembro, em Salto, interior de São Paulo, o influenciador Thiago Schutz foi detido depois que a namorada afirmou ter sido agredida ao recusar relações sexuais.

Thiago passou por audiência de custódia e foi liberado. Em relatos à imprensa, a vítima mencionou vergonha e constrangimento, sentimentos que, mais uma vez, recaem sobre quem sofre a violência, e não sobre quem a pratica.

Poucas horas depois, no dia 29, a zona norte da capital paulista foi palco de uma cena de extrema brutalidade: Taynara Santos, 31 anos, mãe de duas crianças, foi atropelada e arrastada por cerca de 1 quilômetro.

O principal suspeito é seu ex-companheiro, Douglas Silva, de 26 anos, que, segundo as investigações, teria brigado com ela por ciúmes momentos antes do atropelamento. Taynara foi socorrida em estado grave e precisou amputar as duas pernas.

A Polícia Civil investiga o caso como tentativa de feminicídio, e o suspeito foi preso. Portanto, não se trata de um “acidente de trânsito”, mas de um crime gravíssimo contra uma mulher, em contexto afetivo e por motivo de controle e posse.

Ideologias misóginas que alimentam a violência

Ao olharmos para esses dois casos em conjunto, percebemos que eles não surgem do nada. No primeiro, temos um homem que ganhou visibilidade justamente por difundir discursos que colocam mulheres como inferiores, emocionais demais, erradas por natureza.

Thiago Schutz tornou-se conhecido por um conjunto de ideias ligadas à chamada “red pill”, uma ideologia que apresenta uma masculinidade tóxica como se fosse verdade incontestável. Em seus conteúdos, aparecem noções de hierarquia entre homens e mulheres, regras sobre o que seria uma “mulher de alto valor”, sempre submissa ao desejo masculino, frases que revelam incômodo em sair com mulheres mais altas, como se o valor do homem residisse em algum tipo de superioridade física e simbólica, além de falas ameaçadoras já expostas em reportagens televisivas.

Nesse contexto, a acusação de que ele teria agredido a namorada por ela ter dito “não” ao sexo não é um ponto fora da curva, mas uma consequência de uma visão de mundo que nega à mulher o direito sobre o próprio corpo.

Da mesma forma, o caso de Taynara também não é fruto de um simples “surto”. Quando um ex-companheiro, movido por ciúmes, é suspeito de atropelar e arrastar uma mulher por um quilômetro, estamos diante do degrau extremo de uma escada de violência.

feminicídio

Em geral, essa escada começa com piadas e desqualificações (“mulher é louca”, “mulher fala demais”), avança para o controle (“não pode usar tal roupa”, “não pode ter tais amigos”), passa pela violência psicológica e moral (humilhações, xingamentos, ameaças) e, muitas vezes, chega ao empurrão, ao tapa, ao soco.

Quando não é interrompida, essa escalada desemboca no feminicídio, tentado ou consumado.

Assim, tanto no episódio envolvendo Schutz quanto na tentativa de feminicídio contra Taynara, vemos a mesma lógica: homens que se sentem autorizados a punir, controlar e, em última instância, destruir mulheres que não se encaixam em suas expectativas de obediência.

Entretanto, a sociedade continua tentando atenuar esses comportamentos com explicações como “perdeu a cabeça”, “foi no calor do momento” ou “foi impulsivo”. Essas expressões sugerem que a violência extrema seria apenas uma falha emocional passageira.

Contudo, é preciso reconhecer que, na verdade, estamos lidando com crenças profundamente enraizadas: a de que o homem teria poder natural sobre o corpo, os movimentos e as escolhas da mulher; a de que ciúmes é prova de amor, e não sinal de risco; a de que, se a relação acaba ou se a mulher diz “não”, o homem estaria autorizado a retaliar.

A cultura da violência de gênero

Não se trata, portanto, de um rompante isolado, mas de um produto daquilo que chamamos de cultura da violência de gênero.

Ao mesmo tempo, é importante reforçar que, em hipótese alguma, a vítima é responsável pela violência que sofre. Ainda assim, para fins educativos, precisamos olhar para as condições que fazem com que tantas mulheres entrem ou permaneçam em relacionamentos potencialmente abusivos.

Muitas vezes, há um histórico familiar em que violência é tratada como “normal de casal”, discursos que repetem que “homem é assim mesmo” e que “mulher tem que aguentar”, além de uma socialização que ensina meninas a priorizarem o outro e a duvidarem de si mesmas.

Somam-se a isso questões psicológicas, como traumas anteriores e baixa autoestima, e fatores econômicos e sociais, como dependência financeira e responsabilidade pelos filhos, que tornam a ruptura muito mais difícil.

Assim, o que chamamos de “escolha” afetiva, muitas vezes, é uma pseudoescolha: uma decisão tomada dentro de um repertório limitado, condicionado por experiências de abuso, falta de apoio e ausência de autoconhecimento.

Nesse cenário, discutir esses casos não é uma defesa de censura, mas um chamado ao cumprimento da Constituição. A mesma Carta que garante a liberdade de expressão afirma a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações e a dignidade da pessoa humana como fundamento da República.

Se já compreendemos que não é aceitável, em rede nacional, declarar que pessoas negras ou gordas são inferiores, por que ainda toleramos, com tanta naturalidade, conteúdos que propagam a ideia de que mulheres valem menos, devem obedecer e podem ser humilhadas?

Não se está falando de proibir debates complexos sobre gênero, mas de responsabilizar discursos que incitam ódio, reforçam hierarquias e alimentam comportamentos violentos, sobretudo quando se transformam em produto, audiência e lucro.

Educação como caminho para interromper a violência

pedido de ajuda

Diante de tudo isso, é inevitável voltar o olhar para a educação. É na sala de aula que meninos e meninas podem aprender, desde cedo, que ninguém tem direito sobre o corpo de ninguém, que ciúmes não é prova de amor, que “não” é uma frase completa.

Atividades lúdicas, discussões orientadas, análise crítica da mídia e das redes sociais, além de projetos voltados à autoestima e ao autoconhecimento, são caminhos possíveis para que crianças e adolescentes passem a reconhecer sinais de abuso, questionar padrões e rejeitar discursos que naturalizam a agressividade masculina e a submissão feminina.

Ao envolver também as famílias, a escola pode ajudar a romper modelos que se repetem de geração em geração, oferecendo novas referências de masculinidade e de relacionamento.

Por fim, ao olharmos para a namorada de Schutz, envergonhada por denunciar, e para Taynara, que sobreviveu, mas perdeu as pernas, a questão que se impõe é se vamos continuar tratando casos assim como exceções ou se vamos admitir que já ultrapassamos há muito tempo o limite do aceitável.

A resposta que dermos, na lei, nas plataformas, nas casas e nas salas de aula dirá se continuaremos a produzir novas vítimas e agressores impunes, enfim, começaremos a interromper esse ciclo.

 

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