“Cuidado aí, seu piloto, eu sou mãe, não posso morrer.” Escutei essa frase pela primeira vez durante uma turbulência, anos atrás.
Uma mulher a gritou no meio do voo. Eu não tinha filhos naquela época, então, confesso: ela soou exagerada. Um drama no susto. Não fez sentido algum para mim.
Pula para novembro de 2025. Hoje, não só compreendo — como repito. Mas descobri uma variação igualmente importante: “Eu sou mãe. Não posso me machucar.”
Cheguei aos quase 40 anos sem nunca ter quebrado nada. Nenhum osso. Quase nenhuma promessa. Até que, num dia de correria para resgatar o filho mais velho, desci correndo a escada com a filha mais nova no colo. E escorreguei.
Para protegê-la, virei escudo humano: desci um lance inteiro de escadas com o cotovelo servindo de freio. Ela teve só um arranhão na mão. Eu, um alívio imenso. E um braço engessado.
Se você já teve alguma parte do corpo engessada, conhece essas descobertas a seguir: é preciso duas mãos para prender o cabelo, para cortar um bife, para tomar um bom banho e se enxugar depois. Tudo isso falando só de cuidados pessoais.
Agora imagina cuidar de outra pessoa, pequena, com uma mão só? Colocar uma fralda. Erguer uma criança no berço. Amarrar um sapato. Lavar o cabelo de alguém. Vestir o uniforme da escola. Sozinha, uma só mão não dá conta.
A verdade é que só descobrimos a função do outro lado do corpo quando ele falha. E, então, percebemos: aquela mãe que não podia morrer… também não pode adoecer.
Sempre que alguém me via de gesso, eu contava o que tinha acontecido. Se fosse outra mãe, invariavelmente, a conversa terminava com a mesma frase: “Mas a menina teve só um arranhão! Missão cumprida!”
E é mesmo?
Ainda bem que ela não se machucou. Mil vezes eu do que ela. Mas… em que momento começamos a achar que valemos menos que nossos filhos? Quando foi que aceitamos, sem notar, essa troca silenciosa onde o bem-estar deles sempre vem antes da nossa integridade?
Essa queda me mostrou algo desconfortável com uma clareza brutal: quando a mãe adoece, a casa inteira adoece junto. Não porque sejamos indispensáveis por algum dom especial, mas porque a rotina foi construída em torno de nós. Somos o relógio, o filtro, o mapa, o lembrete silencioso de tudo o que não pode ser esquecido. Quando esse eixo falha, tudo engasga.
E é aí que entendemos: por mais que amemos nossos filhos, não deveríamos aceitar com tanta naturalidade a ideia de que estamos sempre em segundo plano. Mãe também precisa estar bem. E não estou falando daquele “se cuida” vago, que jogam na nossa direção como se fosse um conselho qualquer. Estou falando de estar realmente inteira.
Dormir. Comer sentada. Ir ao médico quando dói. Ter uma pausa sem culpa.
Cuidar do corpo não como luxo, mas como responsabilidade. Porque quando a gente cai, tudo ao redor precisa se reorganizar sem aviso. E, convenhamos, seria muito mais leve se não fosse sempre assim.
A maternidade, do jeito que vivem nos dizendo, parece um contrato silencioso que assinamos nos comprometendo a aguentar tudo. Mas não dá para sustentar essa lógica para sempre. Se existe um pilar que segura a rotina, esse pilar precisa de manutenção. E isso não nos torna menos mães. Nos torna mães possíveis.
As que seguem, as que recomeçam, as que fazem o que dá — e que, mesmo na queda, entendem que seu bem-estar não é negociável. Porque, no fim, uma mãe inteira sustenta a casa. Já uma mãe quebrada tenta sustentar o mundo com uma mão só e ainda se culpa por não dar conta.