Comportamento Contas
Fim do ano: entre balanço e julgamento
O colunista André Cavalcanti tem algumas perguntas. Vamos refletir?
28/11/2025 06h00 Atualizada há 10 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
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Chega a reta final de novembro e, goste ou não de clima de festas, a pergunta aparece:

“E aí, como foi o seu ano?”

Não é só sobre dinheiro na conta. É um inventário da vida:

“O que eu fiz comigo nesses últimos doze meses?”

O jeito dominante de encarar isso costuma ser cruel. A cultura transforma a pergunta num mini julgamento final. Como se, em todo dezembro, um tribunal interno fosse convocado: de um lado, o eu ideal, com suas metas anotadas em janeiro; do outro, o eu concreto, que se arrastou, errou de rota, improvisou, cansou.

O placar quase sempre é o mesmo: sensação de que ficou faltando.

A diferença entre examinar a vida e fazer auditoria pessoal

Olhar para a própria vida não é novidade. Platão já dizia que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.

Mas esse “exame” não tinha formato de auditoria nem relatório de produtividade. Era mais uma curiosidade radical sobre a existência:

“O que estou fazendo aqui?”
“Que tipo de pessoa estou me tornando com as escolhas que faço?”

Hoje, muitas vezes, trocamos essas perguntas por um controle de metas.
Em vez de “quem estou me tornando?”, vira:

“Entreguei o que prometi pra mim mesmo lá em janeiro?”

Objetivos podem ser ferramentas úteis. Ter algum norte ajuda a não viver só no improviso.

“Quero mudar de área.”
“Quero escrever mais.”
“Quero ter mais tempo com meus filhos.”
“Quero cuidar da saúde.”

Isso funciona como bússola: dá forma ao desejo e tira a vida do modo puramente aleatório.

O problema começa quando o objetivo deixa de ser referência e vira lei:

“Até os 30 eu preciso ganhar tanto.”
“Até o ano que vem tenho que estar em tal cargo.”
“Em seis meses meu corpo, meu currículo e meu patrimônio têm que estar em tal padrão.”

O que realmente está nas nossas mãos?

Quando isso se mistura com trabalho e dinheiro, o risco aumenta. Carreira e renda não dependem só de vontade. Dependem da economia, de decisões de outras pessoas, de saúde, de rede de apoio, de privilégio, de acaso.

Quando organizo o balanço como se tudo fosse resultado direto de mérito ou falha individual, a conclusão vem pronta:

“Se não aconteceu, a culpa é minha.”

Talvez ajude separar dois planos:

1. O que de fato está nas minhas mãos?

2. O que depende de fatores externos, mesmo que eu me esforce muito?

Não está só nas suas mãos ser promovido, ganhar X reais, publicar um livro ou ser reconhecido.
Está, sim, nas suas mãos se aproximar de uma área que faça sentido, estudar, se organizar, escrever algumas linhas, tentar. Misturar essas esferas é receita de angústia.

Tem outro ponto: a vida não anda em linha reta. Ela se move em ciclos.

.Ano de começar coisas.
.Ano de cuidar do que já foi iniciado.
.Ano de perder e recomeçar.
.Ano de simplesmente aguentar firme.

Nem todo ciclo é de colheita visível. Às vezes, o que você fez “apenas” foi atravessar uma doença, um luto, um esgotamento, uma crise familiar. Isso não fica bonito em lista de metas, mas diz muito sobre quem você é.

Um modo diferente de olhar para o ano é trazer a pergunta incômoda do “se tivesse que viver de novo”, inspirada no eterno retorno de Nietzsche.

Se você fosse obrigado a repetir este ano exatamente como foi, quais momentos aceitaria viver outra vez, mesmo com dor? Que relações, decisões, pequenos gestos você reconhece como seus, mesmo sem final feliz?

Isso ajuda a separar o que foi só pressão externa daquilo que, de algum jeito, carregava o seu desejo.

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Como reorganizar o balanço anual sem culpa

Em vez de um balanço guiado apenas por checklist de conquistas, dá pra reorganizar as perguntas:

• Em que situações deste ano fui mais leal a mim mesmo?

• Onde me traí só para caber nas expectativas dos outros?

• O que fiz principalmente por medo de ficar para trás, e não por vontade real?

• Que partes da minha vida pedem encerramento, e quais ainda merecem chance, mesmo sem garantia?

Metas, usadas com cuidado, podem ser um pacto provisório com o futuro:

“Quero caminhar nessa direção, se as condições ajudarem.”

Elas se tornam venenosas quando viram sentença:

“Se eu não chegar lá, não valho nada.”

A partir daí, o objetivo deixa de organizar a vida e passa a sufocá-la.

Isso fica ainda mais perverso nas expectativas profissionais e financeiras. Vivemos cercados por frases como “se você quiser, você consegue”, “tudo depende de foco e disciplina”.

O discurso parece motivador, mas traz uma armadilha: se não deu certo, o fracasso é sempre seu. Contexto, desigualdade, crise, acaso… somem da cena. Não é só uma leitura falsa; é conveniente. Uma pessoa que se culpa por tudo tem menos fôlego para questionar o ambiente em que está.

Talvez o balanço de fim de ano possa ser outra coisa: menos tribunal, mais investigação honesta.

Em vez de “o que eu não consegui?”, perguntas como:

• O que eu descobri sobre mim que preferia não ver, mas agora está evidente?

• Que limites físicos, emocionais e éticos encontrei – e como posso respeitá-los melhor no próximo ciclo?

• Em que áreas a minha vida está sendo decidida só por inércia?

• Que pequenas mudanças são realmente possíveis com os recursos que tenho hoje?

Ter projetos continua importante. Sem algum tipo de intenção, a gente acaba sendo arrastado pelos planos dos outros. Mas objetivos mais saudáveis deixam espaço pro imprevisível, reconhecem ciclos, aceitam revisão. Eles indicam rumo, não exigem perfeição.

No fim, o balanço de fim de ano não precisa ser um veredito sobre o seu valor. Pode ser uma pausa mais sincera para olhar o que está acontecendo. Não para se absolver de tudo, nem para se condenar por tudo, mas para recuperar um pouco de autoria.

Um balanço mais honesto para encerrar o ano

Talvez a pergunta central não seja “o que eu deveria ter feito este ano?”, e sim:

“Dado quem eu sou e o mundo em que eu estou, que tipo de vida eu ainda quero tentar construir?”

 

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