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Deus, Pátria e Família: a coerência esquecida
Na crônica da colunista Alessandra Moulin: um convite à reflexão sobre a coerência por trás de ‘Deus, Pátria e Família’
27/11/2025 06h00 Atualizada há 10 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
palavras 

Em meio ao turbilhão de vozes que ecoam por aí, cada uma com sua verdade inquestionável, cada uma com seu grito de ordem, sinto que as palavras, por vezes, perdem o sentido.

Há uma cacofonia ensurdecedora, um excesso de discursos que, paradoxalmente, nos deixam mais vazios.

Por isso, peço licença para desviar um pouco do caminho usual dos artigos presentes nesta coluna e convidar à reflexão por uma via diferente, talvez mais sinuosa, mas que espero, nos leve a um lugar mais profundo: a crônica.

Porque, ultimamente, tenho ouvido muito sobre ‘Deus, Pátria e Família’. Uma tríade poderosa, sim, mas que me faz parar e questionar: de qual Deus estamos falando? Seria aquele que enviou seu filho para pregar o amor incondicional, a justiça para os oprimidos, a compaixão até mesmo pelos inimigos? Aquele que nos ensinou a dar a outra face, a perdoar setenta vezes sete?

Ou estamos invocando um Deus feito à nossa imagem e semelhança, um Deus que justifica a intolerância, o julgamento apressado e a exclusão de quem pensa diferente? Será que estamos, de fato, falando mesmo de Deus? A incoerência, aqui, grita mais alto que qualquer sermão.

E que pátria é essa que tanto se defende? Aquela que, em nome de parcerias e acordos internacionais, parece ignorar a própria gente, sobretaxando o que é nosso, o que produzimos com suor e esperança? Uma pátria que se orgulha de sua bandeira, mas que, na prática, muitas vezes vira as costas para seus filhos mais vulneráveis, para suas riquezas naturais, para sua própria soberania econômica?

Onde está o amor por essa terra quando as decisões parecem favorecer o alheio em detrimento do que é genuinamente nosso? O patriotismo, assim, soa oco, uma casca sem conteúdo.

E a família? Ah, a família! Aquela que deveria ser o porto seguro, o ninho de afeto e acolhimento, o primeiro lugar em que aprendemos a amar e a respeitar as diferenças. Mas que, hoje, muitas vezes se transforma em campo de batalha virtual, onde os grupos de WhatsApp viram tribunais sumários e as divergências políticas se tornam motivo para banimentos, para silêncios forçados, para rupturas dolorosas.

É a família que se desfaz por não suportar o contraditório, por não aceitar que o outro pense diferente. Que tipo de laço é esse que se rompe tão facilmente diante da primeira discordância? A palavra ‘família’, nesse contexto, parece perder sua essência mais profunda.

É essa a coerência que buscamos? É esse o alicerce que queremos para o nosso futuro?

Aqui, já ouço os binaristas apontando: ‘Que conversa de comunista!’ ou ‘Eu sabia que a autora era de vertente política de esquerda!’. Meu convite é justamente para não se deixarem colocar em polos. Não! Antes que critiquem...  Isso não é neutralidade. Muito pelo contrário. É um chamado para que você defenda suas pautas.

O que pensa? Como pensa? Será que você consegue fazer isso sem o eco do grupo que o rodeia? Sem a chancela de um partido político ou um personagem endeusado? Quais são as suas verdadeiras pautas?

Pergunto-me, ainda, sobre a pressa em sair para a vigília, em apontar o dedo para o mundo lá fora, em exigir mudanças e condutas alheias. E se, antes de tudo, nos dedicássemos a organizar a nossa própria casa interna? A ajustar as nossas próprias condutas, a alinhar nossos discursos com nossas ações?

Quando recebemos visitas, não nos esmeramos em ser os melhores cicerones? Preparamos a melhor roupa, o melhor prato, o melhor ambiente, a melhor conversa. Queremos que o outro se sinta bem, acolhido, respeitado. Por que não aplicamos essa mesma dedicação à nossa própria existência, à nossa própria essência? Por que não arrumamos a casa de dentro, antes de querer arrumar o mundo lá fora?

Talvez a verdadeira revolução comece no silêncio da nossa reflexão interna, na coragem de questionar nossas próprias certezas e na busca incessante por uma coerência que, de tão esquecida, parece utopia.

Que possamos, então, começar por nós mesmos, arrumando a casa, para que, quem sabe, o mundo lá fora comece a fazer mais sentido.

 

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