Brasil Política
Vigília, prisão e o Brasil que não se enxerga: risco de mais polarização
O colunista André Cavalcanti aponta como a sequência de fatos expõe fragilidades institucionais e a ameaça de um país ainda mais polarizado.
22/11/2025 14h25 Atualizada há 10 meses
Por: Redação
Apoiadores de Bolsonaro fazem vigília

Flávio Bolsonaro grava um vídeo convocando vigília em frente ao condomínio onde o pai está. Fala em oração, saúde de Jair Bolsonaro, liberdade do Brasil.

Pouco depois, Alexandre de Moraes converte a prisão domiciliar em preventiva e a Polícia Federal leva o ex-presidente. 

Esse encadeamento não é coincidência. A vigília não foi gesto inocente de fé, mas tentativa de tensionar instituições usando religião e moral como combustível político. A prisão é também resposta a esse jogo.

O ponto central é como tudo isso se apoia na subjetividade de uma parte do país. Gente que olha para o Estado, para a justiça, para a imprensa, e não se vê, acumulando medo, humilhação e raiva.

Nesse terreno, o bolsonarismo oferece algo sedutor: um líder que promete dizer em voz alta a revolta de quem se sente descartado.

A vigília convocada por Flávio faz exatamente isso. Junta fé e ressentimento no mesmo ato. Quem aparece ali não está apenas “rezando por Jair”. Está defendendo uma identidade. É como se dissesse: se ele cai, nós caímos com ele. Se ele é preso, é a nossa liberdade que está em jogo.

O ato desloca o debate da responsabilidade jurídica para o plano do drama moral.

Assim, Jair Bolsonaro deixa de ser um político condenado e passa a ocupar o lugar de “perseguido”. A pergunta “o que ele fez?” é substituída por “por que estão fazendo isso com ele?”. Essa inversão protege os seguidores de uma dor psíquica difícil: admitir que entregaram confiança e afeto a alguém que pode ter cometido crimes graves contra a democracia.

No lugar de encarar essa dor, entra a narrativa do martírio. A tornozeleira vira símbolo de injustiça. O ministro do STF, inimigo do povo. A religiosidade, nesse uso, não é espaço de cuidado, mas escudo contra a dúvida.

Há também cálculo de poder. Colocar gente na porta do condomínio, em contexto inflamado, cria risco de obstrução, fuga, confronto com a polícia. A mensagem é simples: “temos base, temos rua, temos fé, não aceitamos calados”. Ao endurecer a medida, Moraes indica que esse roteiro não será tolerado.

Mas olhar apenas para cima não basta. Há um outro Brasil nessa cena. O Brasil que passa horas em transporte público, se enrola em dívidas, teme perder o emprego, vive insegurança cotidiana. Muitas dessas pessoas olham para a política institucional e veem tecnocratas falando uma língua que não alcança suas feridas. Quando alguém como Jair Bolsonaro aparece dizendo que “eles” estão contra “você”, essa mensagem encontra terreno fértil.

Aqui entra o desafio de despolarizar e traduzir o país que não se enxerga. Despolarizar não é relativizar tentativa de golpe nem suavizar o papel de Bolsonaro e seus aliados. É manter firmeza na responsabilização e, ao mesmo tempo, recusar a ideia de que todo bolsonarista é lixo humano. Se a resposta ao culto ao líder for só desprezo por quem o segue, o resultado é empurrar ainda mais gente para a mesma trincheira.

Traduzir não é simplificar tese jurídica. É partir da experiência concreta de quem hoje é capturado por esse projeto. Falar de democracia a partir da fila do posto de saúde, da humilhação na porta do banco, da violência policial que atinge sempre os mesmos corpos. Defender a atuação do STF e da PF sem soar como porta-voz distante, mas como alguém capaz de explicar, em linguagem comum, por que golpe e milícia digital pioram a vida de quem já sofre.

Há uma linha a ser desenhada com clareza. De um lado, Jair Bolsonaro, seus filhos, operadores políticos e religiosos, que usaram medo, fé e ressentimento para atacar instituições. Do outro, milhões de pessoas que encontraram nesse grupo uma forma de pertencimento. Confundir esses planos é erro grave. Nem anistia para o comando, nem condenação moral genérica da base.

O episódio da vigília e da prisão mostra que o bolsonarismo segue operando pela captura da subjetividade. Responder a isso exige mais do que celebrar decisões judiciais. Exige construir outras formas de acolher a dor social, sem vender ilusão autoritária e sem transformar ninguém em ídolo.

Se não fizermos esse trabalho, a cena tende a se repetir com novos nomes. Outro político, outra família, outra vigília, o mesmo roteiro. A polarização continuará organizada em torno de culpas e medos mal traduzidos.

E o Brasil que não se enxerga seguirá oscilando entre promessas vazias e a sensação de que, para as instituições e para a política tradicional, ele continua invisível.

 

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