.Educação Idadismo
O idadismo e a urgência de uma educação para a diversidade etária
A colunista Alessandra Moulin reflete sobre o etarismo, o culto à juventude e a importância de educar para o respeito e a valorização das diferentes fases da vida.
10/11/2025 08h15 Atualizada há 11 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula
Imagem: Reprodução | Instagram

Em setembro de 2025, uma imagem da apresentadora Xuxa Meneghel, de 62 anos, viralizou nas redes sociais. O motivo? A flacidez natural de seu braço.

O que deveria ser apenas mais uma foto de uma mulher em sua maturidade se tornou alvo de críticas, piadas e julgamentos.

O episódio escancarou, mais uma vez, uma ferida social que insiste em não cicatrizar: o etarismo, ou idadismo, preconceito baseado na idade, especialmente contra pessoas mais velhas.

Em um país que envelhece a passos largos, a intolerância ao envelhecimento se mostra não apenas contraditória, mas também inadequada.

O envelhecimento em pauta: o Brasil e seus desafios

O tema da Redação do ENEM 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, convida justamente à reflexão sobre como o Brasil tem lidado com esse processo inevitável e natural.

Ao mesmo tempo, a Prova Nacional Docente, ao propor o tema “Idadismo”, reforça a urgência de se discutir, em sala de aula, os impactos sociais, culturais e psicológicos desse preconceito e nem sempre silencioso e fortemente devastador.

Segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em apenas 12 anos. Isso significa que o Brasil está vivendo um processo acelerado de envelhecimento populacional, o que impacta diretamente a composição da população economicamente ativa (PEA).

A idade média da força de trabalho aumentou, enquanto a proporção de jovens diminuiu. Ao mesmo tempo, vemos uma juventude que adia cada vez mais sua entrada no mercado de trabalho, a chamada geração “nem-nem”, que nem estuda nem trabalha, o que torna ainda mais urgente a valorização da experiência e do conhecimento acumulado por pessoas mais velhas.

A sociedade que teme o tempo

ilustração Lead

No entanto, o que se observa é o oposto: uma sociedade que rejeita o envelhecimento como se fosse uma falha moral ou um defeito estético. A pressão estética, especialmente sobre as mulheres, é brutal.

De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética, o Brasil é uma potência mundial nesse setor, com mais de 2 milhões de cirurgias realizadas por ano.

Além disso, ocupa o segundo lugar em procedimentos não cirúrgicos, atrás apenas dos Estados Unidos. A busca por juventude eterna, alimentada por padrões inalcançáveis promovidos nas redes sociais, tem levado muitas pessoas a se transformarem até o ponto de não mais se reconhecerem.

Mas por que o envelhecimento, um processo natural e inevitável, precisa ser colocado em pauta como se fosse um problema? Porque, na prática, ele tem sido tratado como tal.

O culto à juventude e à aparência perfeita cria um ambiente hostil para quem ousa envelhecer visivelmente. A diferença de tratamento entre homens e mulheres nesse contexto é gritante: enquanto atores envelhecidos são frequentemente exaltados como “charmosos” ou “experientes”, mulheres são criticadas por cada ruga, cada marca do tempo, cada sinal de que viveram.

Famosas ou anônimas, todas parecem estar sob o mesmo tribunal implacável da estética. Aqui me refiro ao etarismo de gênero.

A influência das redes sociais e o espelho distorcido da juventude

As redes sociais, que poderiam ser espaços de acolhimento e diversidade, muitas vezes funcionam como arenas de julgamento. A internet, com sua velocidade e alcance, amplifica o preconceito e a intolerância. Modismos e filtros criam uma realidade paralela onde o envelhecimento não tem lugar.

E o mais preocupante: isso afeta não apenas os mais velhos, mas também os jovens, que crescem acreditando que envelhecer é algo a ser evitado a qualquer custo.

Educação e diversidade etária: o papel transformador da escola

É nesse contexto que a escola assume um papel fundamental. Educar para a diversidade etária é educar para a empAitia, para o respeito e para a valorização da trajetória de vida. É ensinar que a beleza não está na ausência de rugas, mas na presença de histórias.

É formar cidadãos capazes de reconhecer o valor da experiência, da sabedoria acumulada, da contribuição que cada geração pode oferecer à sociedade. A escola precisa ser um espaço onde o envelhecimento seja discutido com naturalidade, em que se promova a autoaceitação e se combata o preconceito em todas as suas formas, inclusive o etarismo.

Mais do que nunca, é preciso perguntar: o que está acontecendo com o mundo? Como chegamos ao ponto de considerar ofensivo o simples fato de uma mulher de 62 anos ter um braço flácido?

Como podemos aceitar que a passagem do tempo seja tratada como uma falha estética, e não como um privilégio de quem viveu, aprendeu e resistiu?

O envelhecimento não é um erro. É um processo humano, universal e inevitável. Precisamos urgentemente resgatar o respeito por ele, e isso começa pela educação. Uma educação que não apenas tolere, mas celebre a diversidade etária. Que ensine que cada fase da vida tem seu valor, sua beleza e sua potência.

Que preparemos as novas gerações para envelhecerem com dignidade, cultivando uma sociedade em que o indivíduo não tema, nem se envergonhe, de ser quem é.

Que possamos romper com a angústia imposta por padrões irreais e inatingíveis, permitindo que cada pessoa seja valorizada por sua humanidade, e não pela ausência de rugas em seu rosto. Envelhecer deve ser visto como um processo natural e digno, não como um fardo a ser escondido.

 

Siga:  .Instagram: @prof.alemoulin 
           .YouTube: @draalessandramoulin 
           .Podcasts: Conexões Verbais

 

Clique aqui e ouça o podcast 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

✅ Clique aqui para seguir o Lead Notícia no WhatsApp

 

*A republicação é gratuita desde que citada a fonte. Citação formato ABNT: SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo. Lead Notícia, 2025. Disponível em: [inserir o link da página do artigo]. Acesso em: [data].