Nos últimos anos, a educação brasileira tem sido palco de intensas transformações.
Uma das mais controversas é a redução da carga horária de disciplinas como Filosofia e Sociologia no Ensino Médio, especialmente após as mudanças trazidas pelo chamado “Novo Ensino Médio”.
O que está em jogo, no entanto, vai muito além da simples reorganização de horários ou conteúdos: trata-se de uma disputa profunda sobre o papel da escola na formação dos sujeitos e sobre quem tem o poder de decidir o que deve ou não ser ensinado.
Como nos alerta o curriculista Michael Apple, o currículo não é neutro — ele é um território de poder, onde se travam batalhas ideológicas e se define, em última instância, o tipo de sociedade que queremos construir.
Segundo Apple, o currículo escolar é uma forma de distribuição de poder e de perpetuação de ideologias dominantes. Ele não apenas reflete a sociedade, mas também a molda, ao selecionar quais saberes são considerados legítimos e quais são descartados.
Ao reduzir a presença da Filosofia e da Sociologia nas escolas, não estamos apenas reorganizando conteúdos: estamos limitando o acesso dos estudantes a ferramentas fundamentais para a leitura crítica da realidade.
Essas disciplinas cumprem um papel essencial na formação de sujeitos pensantes, capazes de questionar, argumentar, refletir e transformar.
A Filosofia nos convida a refletir sobre as grandes questões da existência humana — o sentido da vida, a justiça, a liberdade, o bem comum. Já a Sociologia nos oferece instrumentos para compreender as estruturas sociais, as desigualdades, os processos históricos e culturais que moldam nosso cotidiano.
Ambas são, portanto, disciplinas que formam consciências críticas — e é justamente isso que parece incomodar certos setores da sociedade.
A pergunta que se impõe é: qual a lógica por trás do enfraquecimento dessas disciplinas? Seria apenas uma questão técnica ou haveria um projeto político mais profundo em curso?
A resposta parece clara para quem acompanha os debates educacionais: há, sim, um projeto arquitetado para esvaziar o pensamento crítico nas escolas. Afinal, gente que pensa faz barulho — e gente que faz barulho incomoda quem deseja impor uma visão única de mundo.
Essa tentativa de silenciamento não é nova. Historicamente, regimes autoritários sempre buscaram controlar o currículo escolar como forma de manter o status quo.
Nesse contexto, é fundamental resgatar a proposta do educador Dermeval Saviani e sua pedagogia histórico-crítica, que inspira o chamado “currículo saviano”.
Para Saviani, a escola deve ser um espaço de acesso ao saber sistematizado, aquele conhecimento produzido historicamente pela humanidade — inclusive pelos setores dominantes — para que os estudantes, especialmente os das classes populares, possam se apropriar dele e, assim, intervir criticamente na realidade.
A proposta de Saviani não nega a existência de uma cultura dominante, mas defende que o acesso a esse saber é um direito de todos. A escola, portanto, não deve apenas reproduzir o senso comum, mas superá-lo, oferecendo aos alunos as ferramentas necessárias para compreender o mundo em sua complexidade e, a partir disso, transformá-lo.
Filosofar é refletir sobre questões fundamentais da vida humana. É um exercício de liberdade, de busca por sentido, de construção de um olhar mais profundo sobre a existência. Já a Sociologia nos permite enxergar que o que muitas vezes é naturalizado — como a desigualdade, o racismo, o machismo, a pobreza — é, na verdade, fruto de construções sociais e históricas que podem (e devem) ser transformadas.
Essas disciplinas nos ajudam a tirar as lentes do senso comum e a enxergar a realidade com mais clareza. Elas nos ensinam que o mundo não é dado, mas construído — e que, portanto, pode ser reconstruído de forma mais justa e igualitária.
As mudanças implementadas pelo Novo Ensino Médio, especialmente após as alterações na Lei em novembro de 2024, abriram brechas para que cada rede estadual organizasse seu currículo de forma distinta.
O resultado tem sido uma grande variação entre os estados, com disciplinas como Filosofia e Sociologia sendo comprimidas em apenas um semestre ao longo dos três anos do Ensino Médio. Isso compromete seriamente a formação dos estudantes e evidencia a falta de um projeto nacional coerente e comprometido com a formação integral.
Diante disso, professores de pelo menos 16 estados estão se mobilizando para debater os impactos dessas mudanças. Trata-se de uma luta não apenas por carga horária, mas por um projeto de educação que valorize o pensamento crítico, a cidadania e a formação de sujeitos conscientes de seu papel no mundo.
Recentemente, produzi um vídeo no YouTube abordando a situação do Rio de Janeiro, em que analisei aspectos estruturais e sistêmicos do conflito armado que resultou em mais de 120 mortes.
A repercussão incluiu críticas — algumas bastante agressivas — que evidenciam o quanto o debate público está polarizado e como muitas pessoas sequer compreendem o contexto mais amplo das discussões.
Apesar da hostilidade, optei por não apagar os comentários, pois acredito que reconhecer o direito do outro à expressão, mesmo quando discordamos, também é um ato político e pedagógico. Ensinar, afinal, é também saber escutar.
Esse tipo de postura é exatamente o que a Filosofia e a Sociologia nos ensinam: a importância do diálogo, da escuta, da argumentação e da convivência com a diferença.
É por isso que essas disciplinas são tão essenciais — e é por isso que precisamos defendê-las com firmeza.
Reduzir o espaço da Filosofia e da Sociologia na escola é uma forma de calar vozes, de limitar horizontes, de impedir que os jovens compreendam o mundo em que vivem e se reconheçam como agentes de transformação.
É, portanto, uma escolha política — e como toda escolha política, deve ser debatida, questionada e, se necessário, combatida.
Educar é, acima de tudo, um ato de resistência. E resistir, hoje, é garantir que nossos estudantes tenham acesso ao pensamento crítico, à reflexão filosófica e à análise sociológica. Porque um povo que pensa é um povo que não se deixa manipular — e isso, para alguns, é profundamente ameaçador.
APPLE, Michael W. Educação e poder. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 41. ed. Campinas: Autores Associados, 2021.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2008.
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