Se eu te disser “você é uma impostora, sai daí”, o seu estômago aperta? O meu aperta.
No último fim de semana vivi meu primeiro evento como escritora. Até a palestra começar, pensei mil vezes: será que eu mereço estar aqui? O que eu escrevi me dá direito a este palco?
Cheguei e descobri que o “problema” era coletivo.
Em todas - eu disse todas - as mesas que assisti, pelo menos uma autora contou que também se pergunta se tem direito de ocupar o lugar onde está.
Muitas venderam milhares de livros. Estão no ofício há anos. E ainda assim duvidam.
Não é coisa da minha cabeça. Um estudo da KPMG (Women’s Leadership Summit Report - 2020) aponta que 75% das executivas já sentiram a síndrome da impostora em algum momento da carreira.
E esse número provavelmente seria maior se houvesse pesquisa ampla com mulheres que não estão em cargos executivos - as “meras mortais”, como nós.
Não é falta de mérito, não é devaneio nosso; é o ruído que aparece quando mulheres entram em salas onde, por muito tempo, quase não havia mulheres.
Uma das autoras lembrou um escritor que passou 36 dias viajando por sete países para divulgar o novo livro que lançou. “Consegue imaginar uma mãe fazendo isso?”, ela perguntou.
E a pergunta seguinte veio sozinha: qual seria a primeira pergunta feita a ela se ousasse fazer isso? A gente sabe a resposta.
Funciona assim em outras frentes. Um homem escreve sobre temas complexos e é “filósofo contemporâneo”. Uma mulher escreve sobre temas complexos e logo vira “autoajuda”.
Quando comecei esta coluna, recebi dezenas de mensagens de leitoras que se viram nas minhas contradições de maternidade e trabalho.
Ainda assim, no palco, a voz interna me cutucou: “tem certeza de que você pode falar sobre isso?”
Conversei com outras mulheres e ouvi histórias de superação que parecem ficção. Uma escreveu quatro livros durante um burnout. Outra achou a própria voz depois de se despedir do filho com câncer.
Eu mesma terminei meu livro em meio à separação, voltando da licença-maternidade, em jornada dupla de trabalho e aprendendo na marra como ser uma mãe solo.
E olha o absurdo: ainda precisei pedir permissão para acreditar que eu podia falar sobre escrever, trabalhar e ser mãe nesse meio tempo.
Não minta, você conhece esse sentimento. A gente sempre está ou “muito nova” ou “muito velha”. Muito brava ou muito sensível. Muito mãe para o trabalho, muito trabalhadora para a maternidade.
É um jogo feito para que a gente se explique o tempo todo.
Eu recebi várias mensagens de incentivo quando compartilhei aquela vulnerabilidade antes da palestra. E aprendi muito ao ouvir tantas outras falarem sobre a mesma situação.
A solução que me mostraram: desobedeça.
Desobedeça a voz que repete o “você não merece”. Desobedeça ao que alguns homens juram merecer mais do que você. Desobedeça ao tempo que dizem não ser o ideal.
E escute. Escute os fatos, escute o convite, escute o público, escute o seu trabalho.
Talvez o primeiro passo não seja “acabar com a impostora”, mas tirar o megafone da mão dela. Seguir mesmo ouvindo um sussurro. Lembrar que dúvida não é prova; é barulho.
E dá para fazer muita coisa mesmo com barulho. Não precisamos de silêncio absoluto para palestrar, fazer, trabalhar, escrever, brilhar.
Deviam vender em potes a confiança dos homens. Eu compraria. Mas enquanto a prateleira não chega, eu fico com outra coisa: a prática da presença.
Presença no texto, na maternidade possível que eu vivo, na conversa com quem lê. Presença no palco quando o corpo treme. Presença para dizer: “estou aqui porque trabalhei para estar aqui.”