Brasil Política
Entre o império e a pátria: a vitória simbólica de Lula
O colunista André Cavalcanti analisa o encontro entre Lula e Donald Trump, destacando como o gesto político ultrapassa o campo das negociações e se transforma em narrativa de poder no cenário internacional
27/10/2025 15h47 Atualizada há 11 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
Donald Trump e Lula 

Mesmo antes de qualquer assinatura, Lula saiu da Malásia com uma vitória política, e simbólica, garantida.

Há encontros políticos que dizem mais sobre a forma como o poder se representa do que sobre decisões concretas. O recente encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, na Malásia, à margem da cúpula da ASEAN, é um desses episódios.

Ainda que o desfecho tenha sido a promessa de um acordo comercial “próximo”, o gesto em si já produziu efeitos. O encontro serviu menos para resolver tensões do que para reposicionar os dois líderes no tabuleiro internacional.

Um encontro de gestos e reposicionamentos

Trump chegou a Kuala Lumpur pressionado pela necessidade de reconstruir relações com países afetados por tarifas e sanções impostas durante seu primeiro mandato. Lula, por outro lado, buscava reafirmar o lugar do Brasil num cenário global em que as potências disputam influência sobre o Sul Global.

Nesse sentido, a reunião funcionou como uma encenação política mútua, pois cada um precisava do outro para reafirmar algo: Trump, a imagem de estadista capaz de negociar com governos não alinhados; Lula, a de um líder que consegue ser ouvido, mesmo diante do império.

O anúncio de que os países iniciariam “imediatamente” negociações sobre tarifas deu ao encontro uma aparência de resultado concreto. Mas, mais do que o conteúdo, importa o enquadramento.

A narrativa de que o diálogo com os Estados Unidos foi retomado ajuda Lula a reforçar o papel de mediador, ao mesmo tempo em que lhe garante uma reserva simbólica de autoridade.

No jogo político interno, ele se mostra ativo, ainda que os efeitos práticos das conversas sejam incertos.

Donald Trump e Lula, na Malásia

Narrar é poder

Caso o acordo avance, Lula poderá se apresentar como o presidente que “reabriu canais” e defendeu os interesses nacionais de forma pragmática. Se o processo empacar, a retórica muda: ele se torna o líder que resistiu à pressão norte-americana. Em ambos os cenários, o gesto se converte em narrativa — e, na política contemporânea, narrar é, muitas vezes, mais determinante do que realizar.

Essa ambiguidade revela uma forma de poder que se sustenta mais na performance do que na efetividade. A política torna-se espetáculo, e o valor simbólico do ato ultrapassa o conteúdo das negociações.

O simples fato de Lula e Trump se encontrarem projeta a imagem de que ambos ainda comandam relevância no jogo global, mesmo quando os resultados são apenas promessas.

O sujeito que supõe fazer

Sob a lente da subjetividade política, Lula ocupa o papel do “sujeito que supõe fazer”, aquele que age, mesmo quando o alcance da ação é incerto. Essa expectativa de movimento gera apoio e preserva autoridade, ainda que momentânea.

Para seus adversários, isso cria uma armadilha discursiva: é difícil criticar o gesto sem parecer torcer contra o país, e é difícil elogiá-lo sem reforçar a imagem do líder que domina o palco.

Mas há limites para esse tipo de ganho simbólico. O capital político acumulado em encontros como esse se dissipa se não for convertido em resultados concretos. O risco é transformar a diplomacia em pura mise-en-scène, onde o gesto substitui o conteúdo. A linha entre protagonismo e autopromoção é, nesse caso, muito fina.

O encontro de Kuala Lumpur, portanto, não consagra Lula como vencedor absoluto. Ele o mostra como um ator hábil em um cenário de imagens e discursos, capaz de transformar um evento protocolar em narrativa política. A vitória é simbólica, e talvez temporária.

Em um mundo em que o espetáculo substitui o substancial, o que se ganha em visibilidade se pode perder em consistência.

A política é, afinal, também teatro e, nesse palco, Lula domina o roteiro, mas não necessariamente o enredo.

 

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