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Dois verbos para 2026: despolarizar e traduzir
O colunista André Cavalcanti analisa a pesquisa “Os Invisíveis”, da More in Common e Quaest, e propõe duas chaves para o debate político brasileiro rumo a 2026: despolarizar e traduzir.
15/10/2025 06h00 Atualizada há 12 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder

Dois verbos para 2026: despolarizar e traduzir

A recente pesquisa “Os Invisíveis: Populismo e Progressismo no Brasil”, realizada pela More in Common em parceria com a Quaest, oferece o retrato mais nítido da subjetividade política brasileira depois de uma década de radicalização do debate público. Com base em 10 mil entrevistas presenciais, o estudo revela uma sociedade que não se reconhece nas fronteiras convencionais do confronto político.

O dado central é inequívoco: 54% dos brasileiros não se identificam com os campos hoje dominantes na disputa política. São 27% de cautelosos e 27% de desengajados, grupo que a pesquisa chama de “invisíveis”.

Em torno deles estão conservadores tradicionais (21%), esquerda tradicional (14%), patriotas indignados (6%) e progressistas militantes (5%). A principal conclusão é que a maioria da população brasileira é conservadora nos costumes e não liberal na economia, uma combinação que desafia as estratégias discursivas de todos os campos políticos nacionais.

A complexa combinação da subjetividade brasileira

Segundo os dados, 62% dos brasileiros acreditam que o Estado deve reduzir desigualdades e 68% defendem programas sociais permanentes, mesmo que impliquem mais gastos públicos. Ao mesmo tempo, 56% se opõem à legalização do aborto e 59% consideram a religião essencial para orientar a vida moral.

Em outras palavras, o brasileiro médio não deseja um Estado mínimo, como defende a direita econômica, nem transformações aceleradas nas pautas de costumes, como propõe parte da esquerda.

Essa composição não é ambígua. É coerente. Reflete uma sociedade que valoriza a proteção social sem abrir mão de referências culturais e afetivas tradicionais.

A dificuldade está no discurso político, que ainda insiste em traduzir o país pela gramática do embate entre duas visões de mundo, como se a vida comum coubesse no formato de uma disputa permanente. É o discurso, e não o povo, que precisa se ajustar.

Na política, o discurso é mais do que forma: é uma ferramenta de captura da subjetividade. Cada campo tenta nomear o desejo coletivo à sua maneira. A direita o faz com a promessa de ordem e prosperidade; a esquerda, com a promessa de justiça e emancipação.

Mas, em ambos os casos, há uma tendência à moralização, como se o desacordo fosse sinal de ignorância ou falta de caráter. O resultado é um diálogo truncado, em que cada lado fala mais para si do que para o outro.

Por isso, dois verbos se tornam decisivos para 2026: despolarizar e traduzir.

Despolarizar: suspender o julgamento moral

Despolarizar significa reconhecer que o país é mais complexo do que o debate público supõe. O que precisa ser despolarizado não é o cidadão, mas o discurso que o aprisiona em caricaturas: o de que, se alguém é conservador, precisa ser liberal; se é progressista, é um ateu pervertido e desprovido de valores morais; se é de direita, é um fascista antidemocrático; se é de esquerda, é um comunista inimigo da liberdade. Despolarizar não é diluir diferenças, mas ampliar o espaço do diálogo.

É compreender que há legitimidade em ser conservador sem ser autoritário e progressista sem ser militante. Implica aceitar que o outro possa desejar estabilidade, tradição e segurança sem que isso represente atraso. O erro da política contemporânea foi transformar diferença em culpa. O primeiro passo é suspender o julgamento moral, inclusive o próprio.

Mas despolarizar não basta. É preciso também traduzir.

Traduzir significa reconstruir pontes entre valores e experiências, entre ideias e vida cotidiana. A pesquisa mostra que o eleitor médio se preocupa mais com renda, emprego, transporte e saúde do que com bandeiras ideológicas. Não é desinteresse político, é sensibilidade à materialidade da vida. Traduzir, portanto, é falar de política como quem fala de casa, de trabalho, de cuidado. É substituir o jargão moral por uma linguagem de convivência.

Para a direita, isso implica abandonar a retórica de austeridade e de guerra cultural, reconhecendo que a demanda por proteção social é legítima e não sinônimo de dependência. Para a esquerda, significa reaprender a dialogar com os afetos populares, sem impor o ritmo das redes a uma sociedade diversa e desigual. Em ambos os casos, trata-se de deixar de falar “para” o povo e voltar a falar “com” ele.

Essa maioria, os invisíveis, não é uma massa amorfa. É o Brasil real, atravessado por contradições que expressam mais complexidade do que confusão. Quer estabilidade sem imobilismo, justiça sem ressentimento, fé sem intolerância.

Atender a essa maioria não significa anular os anseios identitários das minorias, tampouco sufocar o desejo de prosperar de quem aposta na livre iniciativa. Significa criar um campo simbólico onde diferenças possam coexistir sem violência discursiva.

O que a pesquisa evidencia é um desencontro de linguagem. O povo fala em experiência, e a política responde com ideologia. A vida pede proteção, e o discurso entrega confronto. Se há uma tarefa ética para quem pensa o país, é esta: desideologizar para escutar, traduzir para agir.

2026: o teste de tradução coletiva

O ano de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral. Será um teste de tradução coletiva.

Quem compreender que o Brasil não quer ser convertido, mas compreendido, estará mais perto de governar o que realmente importa: a subjetividade cansada de ser interpretada, mas nunca ouvida.

 

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