Hoje de manhã eu saí com a sensação de que estava esquecendo alguma coisa. Mochila, lancheira, garrafinha, chave do carro. Tudo certo?
No caminho, antes mesmo de virar a esquina, a cabeça começou a falar alto: marcar a vacina, comprar o presente do amigo que faz aniversário neste fim de semana, avisar a fono que não vamos na próxima semana, tirar o frango do congelador, mandar o PIX do presente da professora. Quase dava para ouvir o barulhinho das abas abrindo dentro da cabeça, uma em cima da outra.
No mercado, lembrei do sabão da máquina, do saco de lixo, da pilha da escova de dentes, que acabou. Ainda na fila, esperando, lembrei de marcar horário no dentista e de comprar, na internet, a ração da cachorra.
Então mandei mensagem para mim mesma:
“Não esquecer de assinar o bilhete do passeio da escola”. Cheguei em casa e ninguém viu o que eu carregava. Viram as sacolas. O resto ficou aqui dentro, ocupando espaço.
Não é drama. É logística. Meu Deus, como logística cansa. É o tal peso que não aparece na foto do jantar, mas é ele que faz o jantar existir. Não dá like, não rende stories, mas garante o dia girando.
É sobre isso que quero conversar hoje: esse trabalho silencioso que mantém a casa de pé e, às vezes, derruba a gente por dentro.
Uma pesquisa recente mostrou os efeitos dessas “mil abas” abertas na cabeça da mulher que equilibra dezenas de pratinhos: nove em cada dez mães sofrem com burnout parental, termo geralmente usado para descrever o esgotamento no trabalho, mas que tem efeitos semelhantes em casa.
As mães brasileiras estão esgotadas — e não é difícil entender o porquê. Manter uma casa funcionando e filhos na rotina de escola, atividades, alimentação, saúde, sono e disciplina exige uma energia quase sobrenatural. O corpo cansa, e a mente é a que mais sofre.
Que atire a primeira pedra quem nunca aproveitou os segundos do sinal fechado para anotar algo que surgiu na cabeça de última hora — de lista de mercado a consultas para agendar.
Levante a mão quem nunca acordou de madrugada com um lembrete mental sobre aquele lanche coletivo que o filho precisa levar na escola e você não encomendou.
Manifeste-se a mulher que não precisou largar algo correndo para atender a ligação da escola ou buscar o filho em algum lugar.
Às vezes me sinto uma central de operações. Só que sem equipe. E aí começa o bug: no meio da tarefa, eu paro e penso “o que mesmo eu estava fazendo?”. É como se as abas internas puxassem meu braço. Coloco a mão na bancada, olho para o nada, rebobino o dia de trás para frente até reencontrar o fio. Às vezes, ele se perde.
Isso tem nome: carga mental — esse peso invisível que, com um pulo, vira burnout parental. Não é frescura. É aquele estado em que o corpo segue no automático, mas a cabeça parece assistir à cena de fora. A gente trava.
E aí a coreografia beira o impossível: performar no trabalho, chegar na escola a tempo, ter paciência para a tarefa de casa, garantir um jantar que eles comam e fechar a rotina do sono sem nenhum grito. Em dias bons, sai. Em outros, qualquer gota transborda.
Não é incompetência. É excesso de abas abertas. Se até o melhor computador trava, imagine nós, pobres mortais.
Mas e aí, o que fazer? Eu não tenho resposta pronta. Ainda não descobri como resolver isso tudo. Não há manual. Não há solução mágica — até os especialistas já estão debruçados sobre isso. Tenho o relato de quem tenta todos os dias. Há dias que fluem e dias que transbordam.
Se o peso também mora aí, já somos duas. Só de nomear o esgotamento, três abas se fecham de uma vez. Talvez o contrário de “se esgotar” não seja “dar conta”. Seja poder dizer: está pesado.
Dito isso, eu fecho a porta, coloco água para ferver e sigo. Amanhã eu vejo o resto — ou, pelo menos, o que eu lembrar.
*fotos da ilustração da coluna: Andressa Anholete / Gi Vieira
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