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O que acontece quando milhares de pessoas se juntam em uma praça ou avenida? Mais de um século atrás, um médico e antropólogo francês chamado Gustave Le Bon já se fazia essa pergunta. Em 1895, em A Psicologia das Multidões, ele escreveu que, ao entrar em uma massa, o indivíduo perde parte da crítica e ganha outra forma de pensar, guiada pelo contágio emocional. Na multidão, dizia Le Bon, a razão se enfraquece, os afetos se intensificam, a sugestão “se espalha como fogo”.
Freud, anos depois, retomou esse debate e lhe deu um novo contorno. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), ele reconheceu o mérito de Le Bon, mas foi além: explicou que não basta pensar em emoção e sugestão. A força da massa está no laço que cada pessoa estabelece com um líder. Esse líder se torna o “ideal do eu” coletivo, aquele que encarna o que todos desejam ser. É por essa via que a massa ganha coesão: não apenas pelo contágio, mas pela identificação vertical com uma figura central.
As massas, assim, têm marcas claras. São homogêneas, porque apagam as diferenças individuais em nome de uma semelhança artificial. São emocionais, porque o vínculo não é da razão, mas do afeto. São sugestíveis, porque aceitam sem resistência palavras de ordem, símbolos e narrativas que distorcem a verdade. E são hierárquicas, porque precisam de um líder que as organize, mantenha unidas e diga o que pensar ou sentir.
Os atos bolsonaristas desde 2020 se encaixam nesse retrato. Eles não foram apenas manifestações políticas: foram celebrações de devoção a um nome. Camisas com o rosto estampado, bandeiras exaltando o “mito”, discursos que misturavam religião e política. Tudo girava em torno de Jair Bolsonaro como líder supremo. O que mantinha aquela massa unida não era uma pluralidade de causas, mas a identificação afetiva com uma figura que prometia proteção e ordem.
Há algo de sedutor nesse tipo de vínculo. Participar de uma massa liderada dá alívio: é sentir-se parte de algo maior, dissolver a solidão, receber segurança de uma autoridade forte. Mas o preço é alto: a autonomia se enfraquece, a crítica é suspensa, e a democracia se reduz à voz de um só.
Já as manifestações do dia 21 de setembro de 2025 foram de outra natureza. Milhares ocuparam ruas em mais de trinta cidades contra a PEC da Blindagem e contra a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro de 2023. Não havia um líder a ser adorado. Não havia um rosto estampado em camisetas. Havia indignação, havia corpos reunidos para dizer “não” a medidas que ameaçam a democracia.
Essa diferença é fundamental. O que uniu essas pessoas não foi a devoção vertical a um chefe, mas um sentimento horizontal de pertencimento a uma causa. Não se tratava de obedecer a alguém, mas de partilhar uma recusa. A multidão de setembro de 2025 não tinha dono: tinha uma preocupação comum.
Esse tipo de mobilização é mais frágil, mas também mais livre. Frágil porque pode se dispersar sem um centro que a mantenha coesa. Livre porque permite que cada pessoa permaneça inteira, sem precisar ceder sua autonomia para seguir um chefe. É uma reunião de singularidades que, mesmo diferentes, encontram um ponto em comum. E esse ponto não é um mito a ser seguido, mas uma democracia a ser defendida.
Subjetivamente, a diferença é imensa. A massa que gira em torno de um líder reproduz a lógica familiar da autoridade: pertenço porque obedeço, sou uma pessoa amada porque me submeto. A multidão sem líder se organiza de outra forma: pertenço porque me reconheço na luta das outras pessoas, me acolhem porque minha voz se soma às demais. Não há um dono da verdade, mas um espaço onde cada sujeito pode estar sem renunciar a si mesmo.
No domingo (21), as ruas mostraram essa outra possibilidade. Diferentes movimentos, partidos, coletivos e sindicatos se encontraram sem precisar se fundir em um só grito. Foram capazes de afirmar um “não” coletivo sem precisar dizer “sim” a um chefe. Isso é instável, é verdade. Mas é também profundamente democrático.
Se Le Bon nos ensinou a ver como a massa pode dissolver a autonomia, e Freud explicou como ela se organiza em torno de um líder, as manifestações de setembro de 2025 nos oferecem uma nova lição: também é possível uma multidão que se reconhece livre. Uma multidão que não se curva a um dono, mas que se tece por laços, por indignações partilhadas, por cuidado com o que está em risco.
Quando a multidão se reconhece livre, ela deixa de ser massa e passa a ser cuidado coletivo.