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Descansa, gata: o começo de uma conversa real
coluna | Feminino Preto
16/09/2025 06h06 Atualizada há 1 ano
Por: Gabrielle Vieira | coluna Feminino Preto

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Tenho para mim que, no nosso primeiro encontro, eu preciso me apresentar. Você pode ter lido na minha descrição de colunista (achei chique falar isso) o convite para entrar no meu mundo. Mas, quando você entrar, me fale também um pouco do seu — e vamos fazer uma troca. Aí sim isso aqui vai ser muito mais legal!

E já que, a partir de agora, terei companhia nessa jornada, preciso te preparar para o que possa vir por aí! O que posso adiantar é: fica, vai ter bolo! E café!

No primeiro momento, fiquei inquieta sobre como seria essa abertura, o primeiro “olá!”. Qual tema eu traria? A empolgação me fez atropelar assuntos dentro da cabeça, como um efeito dominó. Quero fazer bem feito— afinal, fui treinada para isso. (Treinada por quem, Gabrielle? Conto isso pra vocês mais pra frente).

Depois de tanto pensar — e pensar em meio aos meus afazeres de tia, filha, amiga, mulher com dois empregos, estudante, e com a vida de solteira-guerreira-cansada — eu fui obrigada a parar e descansar. Literalmente.

Escrevo este texto num domingo à noite, depois de dois finais de semana de plantão e de semanas pesadas no judiciário brasileiro. Quando finalmente tive um fim de semana livre, não sabia se saía com amigos, se fazia a unha, se ficava em família ou se descansava (mas aquele descanso em que a gente fica com o celular na cara e não resolve nada). Não sou mãe ainda, mas me senti como uma mãe sem filhos que não sabe o que fazer quando recebe um dia de folga. Minha “amiga-lead” vai poder falar disso melhor, lá na coluna dela, De mãe para mãe.

A vida — ou o meu cunhado mesmo — me aprontou uma. Logo eu, a elétrica. No sábado à noite, durante uma crise de tendinite, resolvi tomar um remédio que peguei com ele (não sigam meu exemplo: não tomem medicamentos sem prescrição médica). Amigos, eu nunca pensei que um comprimido tão pequeno pudesse me parar. Mas parou, e foi necessário. Passei o domingo inteiro dormindo. Não tive escolha: era isso ou isso. No fim, foi bom. Bom parar de verdade. Bom descansar de verdade. Bom renovar.

Então, o que eu posso te dizer nesse primeiro momento é: gata, descansa!

Eu poderia trazer aqui dados sobre burnout, cansaço e exaustão entre mulheres. Mas tenho certeza de que essa sensação é geral.

Sou millennial e cresci ouvindo a sociedade dizer que mulheres precisam alcançar lugares altos, que podemos ser o que quisermos, que podemos e podemos… Que conseguimos dar conta da casa, dos estudos, do trabalho, da academia, e ainda sermos sempre lindas. Sem contar quando a própria mente resolve se voltar contra mim e me cobrar também.

Conquistamos muito até aqui, e ainda há muito a mudar no mercado de trabalho para mulheres — e, principalmente, mulheres pretas. Ainda precisamos avançar em leis, benefícios e segurança. Vamos falar sobre tudo isso aqui, mas com equilíbrio.

Gabrielle Vieira - colunista Lead
(foto: Gi Vieira)

Por isso, antes da gente conquistar, se possível: descansa, gata.
Eu precisei entender isso depois de tomar um rem
édio para dor, resultado de muitos dias trabalhados.

Também vou falar aqui sobre o que significa ocupar lugares em que, muitas vezes, somos as únicas — como mulher e como mulher preta. Vou falar dos dilemas e afetos do cotidiano, das conversas que escuto, dos silêncios que pesam numa reunião, da força que existe num gesto de cuidado. Vou falar de mim, mas também de tantas outras que se reconhecem nesse caminho.

Afinal, escrever é se despir. Muitas vezes, é ser vulnerável. Tenho tatuado no corpo: ser de verdade. Costumo honrar a dor que senti para deixar isso marcado na pele — e também a dor que senti para entender isso em mim.

Seja bem-vinda, seja bem-vindo. A partir de agora, caminhamos juntos por esse universo que é pessoal, mas também coletivo.

 

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