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O sujeito suposto fazer: quando tudo vira meta de produtividade
coluna | Subjetividade e Poder
16/09/2025 06h00 Atualizada há 1 ano
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder

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Lacan, na psicanálise, cunhou um conceito que ajuda a entender como nos relacionamos com a autoridade: o sujeito suposto saber. A ideia é simples: confiamos porque acreditamos que o outro sabe. O aluno supõe que o professor sabe. O paciente acredita que o médico sabe. O cidadão espera que o juiz saiba. Até os algoritmos, quando nos indicam filmes, músicas ou rotas de trânsito, parecem “saber” o que é melhor para nós. Essa suposição sustenta vínculos de confiança e organiza a vida em sociedade.

Mais do que isso: ela participa da nossa própria formação como sujeitos. Desde cedo, crescemos sob a influência de adultos a quem atribuímos saberes — pais, cuidadoras, professores. É essa suposição que nos insere na linguagem, na cultura e nas regras sociais. Falamos e aprendemos porque acreditamos que existe um outro que sabe e que pode nos responder. O sujeito suposto saber é, portanto, uma peça fundamental da vida coletiva e da constituição de cada um de nós.

Mas o nosso tempo acrescentou uma engrenagem nova a essa dinâmica: o sujeito suposto fazer. Aqui, a lógica muda. Não se trata apenas de supor que o outro sabe, mas de viver sob o imperativo de que algo tem de ser feito por alguém. Não é exatamente “eu tenho de fazer”, mas uma sensação difusa de que nunca pode haver pausa, de que sempre há uma tarefa pendente, um dever a cumprir.

Para algumas pessoas, o imperativo é internalizado como “eu tenho de fazer”, e a vida se transforma numa corrida sem fim. Para outras, a ideia é que “alguém tem de fazer”, e aí surgem as transferências: maridos que empurram para esposas a responsabilidade pela casa, filhos que esperam dos pais a organização de suas vidas, adultos que deixam para familiares ou amigos tarefas que poderiam assumir. Em qualquer cenário, o imperativo não desaparece: ele apenas se desloca de lugar.

Se no sujeito suposto saber somos inseridos na linguagem pela confiança de que o outro sabe e pode responder ao que dizemos, no sujeito suposto fazer entramos na linguagem de outra maneira: pelo imperativo de justificar que algo foi feito. A fala deixa de ser apenas expressão de desejo ou busca de sentido e passa a carregar sempre um tom de prestação de contas. Cada palavra se converte em relatório, cada frase em comprovação de que estamos produzindo, respondendo, entregando. Assim, a linguagem já não é apenas espaço de encontro com o outro, mas campo de legitimação da performance. É como se só pudéssemos existir plenamente quando mostramos, pela fala, que estamos em ação — um modo de ser atravessado pela obrigação constante de demonstrar resultados.

O sujeito suposto fazer aparece, de forma muito clara, na maneira como vivemos o trabalho, o lazer e até as relações. Meditar deixou de ser apenas um instante de silêncio e passou a ser vendido como técnica para “aumentar a produtividade”. A corrida não é mais apenas prazer ou saúde, mas quilômetros exibidos em aplicativos. A leitura precisa virar lista de metas anuais. Até as férias precisam render registros fotográficos e curtidas acumuladas. E, no campo íntimo, o desempenho sexual se torna mais uma métrica: quantas vezes, por quanto tempo, com que intensidade. Até o desejo, que deveria ser espaço de encontro e criação, se converte em número e resultado.

As redes sociais intensificam esse movimento. A vida parece só ter valor quando se converte em entrega visível e mensurável. O descanso, que deveria ser direito, passa a ser visto como perda de tempo. Pausar soa como fracasso.

Os efeitos subjetivos são conhecidos. Para quem internaliza o “eu tenho de fazer”, surgem a ansiedade, o cansaço, o burnout e a permanente angústia difusa pelo fracasso. Para quem recebe a carga transferida, há sobrecarga silenciosa — e sabemos que, em nossa sociedade, isso atinge sobretudo as mulheres, que acumulam trabalho formal, cuidado com a família e tarefas domésticas. Já quem transfere o fazer pode se livrar da fadiga, mas não da angústia difusa de que “algo ficou por fazer”.

O resultado é um círculo vicioso. O desejo, esse espaço aberto para o inesperado, perde lugar. A subjetividade se vê colonizada pela obrigação de performar. E o corpo responde com tensão, exaustão e, muitas vezes, adoecimento.

Politicamente, essa lógica também tem consequências. Quando todos vivem sob o sujeito suposto fazer, os cidadãos passam a ser vistos — e a se ver — como empreendedores de si mesmos, em débito constante com metas inalcançáveis. A vida vira prestação de contas permanente. O que não se traduz em resultado perde valor.

Questionar essa engrenagem não significa defender a preguiça. É, antes, recuperar o direito ao tempo improdutivo. O silêncio, o ócio e a pausa não são desperdício: são espaços de invenção, de descanso, de encontro consigo mesmo. É nesse intervalo que o desejo pode florescer, livre da pressão da performance.

Talvez a forma mais radical de resistência hoje seja simples: reivindicar o direito de não fazer. Lembrar que nem tudo precisa de justificativa, que há legitimidade no “não tô a fim de fazer agora” e que o valor da vida não está apenas em resultados, mas também nos intervalos, nos gestos gratuitos e nos momentos que não se medem em números. Para isso, é preciso reconhecer a culpa que tantas vezes acompanha a pausa. Só quando compreendemos essa culpa como algo construído socialmente — e não como falta pessoal — podemos começar a dominá-la. O cuidado é também a capacidade de sustentar espaços de descanso e de desobrigação, onde a vida pode fluir sem a cobrança constante de resultados, e é nesse movimento que tanto o descanso quanto a desobrigação deixam de ser vistos como fracasso e se tornam atos de liberdade.

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