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Quem passa por Palermo, um dos bairros mais movimentados e boêmios de Buenos Aires, se depara com uma cena inusitada.
Eu mesmo levei um susto e fiquei intrigado quando vi pela primeira vez. Na porta de uma casa, no cantinho do portão, um manequim em forma de criança, em pé e como se estivesse de castigo. Ele paralisa vizinhos, comerciantes e turistas.
De longe, parece um menino de verdade. Muita gente acredita que seja. A polícia já foi chamada, o trânsito já parou e não faltam celulares registrando a cena.
A explicação vem do próprio criador: é El Niño, obra do artista de rua BiH Sebastián Andreatta. O boneco pesa 43 quilos, tem um metro de altura e já tinha aparecido antes, em outra região de Buenos Aires, na Plaza Mafalda, uma praça dedicada à famosa personagem de Quino. Lá, a obra acabou destruída pouco depois de ser instalada. Agora, o boneco fica na frente da casa do artista.
A provocação de BiH é clara: colocar a cidade diante da infância castigada, marginalizada, tantas vezes invisível de algumas crianças, principalmente os menores que vivem na rua, na pobreza, como ele mesmo me contou.
O que busco é chamar a atenção para as crianças deixadas de lado, que não têm a sorte de viver a alegria e a plenitude da infância que eu, e muitos de nós que estamos aqui, tivemos a chance de viver.
O boneco não tem rosto, não tem nome, veste uma roupa e um par de tênis doados.
Fiquei um bom tempo na rua para observar as reações das pessoas e foram de todo tipo. Tem quem sentiu medo, quem se revoltou, quem parou para refletir. Uns veem arte, outros apenas um incômodo. No fim, El Niño faz exatamente o que uma intervenção urbana deve fazer. Interromper a rotina, arrancar sentimentos, obrigar a cidade a pensar.
Por algumas horas, Palermo Hollywood deixa de ser apenas o bairro de escritórios, cafés, restaurantes e vida noturna. Vira palco de um debate inesperado. Tudo por causa de um boneco que nos lembra da infância que sofre, mas que quase sempre preferimos não enxergar.
BiH reforça que a obra permanecerá no local e que não pretende retirá-la:
Meu menino ficará ali até que alguém o retire, suportando o sol, a chuva, o frio e o calor, como tantas crianças que crescem nas ruas, na marginalidade, em um sistema e em um país que não fizeram, nem fazem nada para interromper essa realidade.