Quando um direito se transforma em calvário: a ineficiência dos cartórios no Brasil

coluna | Voto-Vista

Por: Ruy Conde | coluna Voto-Vista
11/09/2025 às 06h00 Atualizada em 23/09/2025 às 16h10

Instagram: @itcomunicacao - @condejornalista
Linkedin: Ruy Conde

No Brasil de hoje, os cartórios permanecem como sinônimo de burocracia - um obstáculo aceito quase como parte natural da vida civil. O que deveria ser um serviço público de acesso universal, no entanto, se tornou um obstáculo quase intransponível. E falo aqui não como observador distante, mas como vítima direta de um sistema que insiste em tratar o cidadão com descaso.

Sou jornalista, acostumado a lidar com informações, autoridades e instituições. Tenho contatos para me orientar em processos que, para a maioria da população, soam como um labirinto. Ainda assim, estou há meses tentando obter um documento simples — de direito meu, previsto em lei — e até agora não consegui. Gastei dinheiro, tempo e energia, e sigo ignorado.

O caso específico envolve a primeira zona do registro civil das pessoas naturais de São Luís do Maranhão. Preciso de uma certidão restaurada administrativamente, um procedimento que, em qualquer país que leve a sério o acesso a direitos básicos, seria resolvido de forma rápida e transparente. Mas o que encontro é o contrário: telefones que não funcionam, respostas superficiais, ausência completa de devolutiva. Cada tentativa de contato termina em silêncio.

Esse não é um problema isolado. Em diferentes cartórios do Nordeste, a situação se repete. O cidadão comum não consegue falar com ninguém, não há canais digitais que funcionem, a comunicação é truncada e o serviço, precário. O paradoxo é que vivemos num país que conseguiu digitalizar a declaração do imposto de renda, disponibilizar o título de eleitor pelo celular e oferecer prontuários médicos via SUS digital. Enquanto isso, para conseguir uma certidão de nascimento ou de óbito, seguimos presos a balcões analógicos e a um atendimento medieval.

As consequências são devastadoras. Documentos atrasados significam prazos perdidos, benefícios negados, heranças que não são liberadas, casamentos que não se concretizam, concursos e oportunidades de vida que ficam pelo caminho. No meu caso, há prejuízo financeiro concreto. Em muitos outros, há danos irreparáveis: direitos fundamentais que simplesmente se evaporam diante da ineficiência.

Parte da responsabilidade recai sobre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que deveria fiscalizar e garantir o bom funcionamento dos cartórios. Na prática, o órgão se mostra ineficaz. Cria normas e sistemas que mais complicam do que resolvem, e não assegura que os prazos e as obrigações sejam cumpridos. Exige disciplina do cidadão, mas não impõe responsabilidade real a quem presta o serviço.

O problema é estrutural. Cartórios são concessões privadas de uma função pública, um monopólio garantido pelo Estado. Sem concorrência, sem pressão por eficiência, tornam-se feudos onde a cidadania é tratada como favor e não como direito. O resultado é um sistema que perpetua desigualdade: quem tem dinheiro contrata despachante ou advogado e consegue resolver, mas nem sempre. Quem não tem, fica refém da espera e do silêncio.

É urgente uma reforma. Não se trata apenas de digitalizar processos, mas de mudar a lógica de funcionamento. É preciso estabelecer metas de atendimento, criar canais online obrigatórios e fiscalizados, punir cartórios que descumprem prazos e garantir transparência no andamento dos pedidos.

A cidadania começa pelo acesso a documentos básicos. Quando um país falha até nisso, falha no mínimo. O meu caso pessoal é apenas mais um exemplo entre milhares. E enquanto o CNJ fechar os olhos, continuaremos a viver num Brasil onde um simples papel — que é de direito — pode se transformar em meses de espera, gasto de dinheiro e silêncio.

✅ Clique aqui para seguir o Lead Notícia no WhatsApp

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Lúcia MouraHá 1 ano Taguatinga DFBrasília não é diferente. uma demora pra tudo.
Gabriela Azevedo Há 1 ano Penha - RJAbsurdo o atendimento nesses cartórios. Aqui no Rio é um caos
Cristina AlvesHá 1 ano GoEstou há três anos tentando uma segunda via de um documento no cartório aqui em Goiania. TRÊS ANO!!!!!! O que eu faço? Choro?!
Raminho Há 1 ano FortalezaNão faz sentido em 2025 a gente ter os serviços que sao oferecidos nesses cartórios. Ruy, aqui no meu Ceara , vc nao tem nocao de como sao os serviços. Caso de policia.
Alciene Há 1 ano GoianiaODEIO CARTÓRIOS! B U R O C R A C I A!
Mostrar mais comentários
Ruy Conde
Ruy Conde
Voto-vista é uma coluna que mergulha nos bastidores do Judiciário e do mercado jurídico brasileiro. Aqui, decisões não são apenas sentenças: são movimentos estratégicos que moldam reputações, contratos, setores inteiros da economia e o futuro das empresas. A proposta é revelar — com linguagem acessível e leitura crítica — como o Direito se transformou numa arena de poder, influência e valor de mercado. A cada edição, a coluna analisa os desdobramentos jurídicos que escapam da linguagem técnica e mostram a verdadeira disputa por espaço, narrativa e dinheiro que acontece entre bancas, tribunais e instituições.
Assinatura editorial:
Uma coluna de Ruy Conde, com a colaboração de Paloma Conde e Wlyanna Gomes
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,02 +0,03%
Euro
R$ 5,62 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 440,727,06 -0,59%
Ibovespa
204,302,33 pts -0.74%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade