Geral Análise
O corpo como território político
coluna | Subjetividade e Poder
08/09/2025 06h00 Atualizada há 1 ano
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder

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É impossível falar de política sem falar de corpos. Mas é preciso cuidado: não me coloco aqui como alguém que pode traduzir ou compreender integralmente as dores de mulheres, pessoas negras, trans ou quaisquer populações historicamente subjugadas. Sou um homem branco, minha visão, mesmo carregada de privilégios históricos, é a de quem observa os mecanismos de poder que se inscrevem nos corpos — especialmente nos corpos dos outros. É a partir dessa consciência de limite que escrevo.

O corpo não é apenas matéria biológica. É território de disputa. Quem controla o corpo controla também a vida, o desejo, a liberdade. Essa é a lição que atravessa séculos de colonização, escravidão, violência sexual, políticas de extermínio e padrões de beleza impostos. Não se trata apenas de escolhas individuais, mas de estruturas que fazem do corpo um campo de batalha.

Michel Foucault chamou de biopolítica esse conjunto de estratégias por meio das quais o poder administra a vida. O poder moderno deixou de se contentar em punir crimes ou impor obediência pela força bruta: agora ele gerencia a saúde, a reprodução, a sexualidade e até os modos de prazer. Define o que é doença e o que é saúde, qual é a forma “correta” de se reproduzir e até mesmo de gozar. É como se houvesse um manual não escrito — mas bem conhecido — sobre o que pode e o que não pode, sobre quais corpos merecem bênçãos e quais carregam a marca do pecado. Nesse ponto, percebemos como a política não se limita às instituições formais: ela se infiltra até na intimidade mais banal, onde cada gemido ou reboladinha precisa de um carimbo moral.

Quando o Estado decide sobre o aborto, não está apenas regulando um procedimento médico; está dizendo quem pode ou não decidir sobre a própria vida. Na prática, mulheres ricas resolvem em clínicas discretas, com anestesia e silêncio. As pobres, empurradas para a clandestinidade, arriscam a saúde, a dignidade e a vida. É a democracia do corpo funcionando ao contrário: quem mais precisa de direitos é justamente quem não os tem.

Quando empresas de cosméticos e moda criam padrões inalcançáveis, não estão apenas vendendo batom ou calça jeans; estão lucrando com a insegurança de quem nunca vai caber na vitrine. E quando religiões impõem dogmas sobre sexualidade e identidade de gênero, não estão apenas pregando fé; estão distribuindo carteirinhas de quais afetos merecem benção e quais devem ser apagados.

Tudo isso é biopolítica: a regulação da vida e da morte por meio de normas, discursos e práticas. O corpo torna-se alvo permanente de vigilância e disciplina, seja na sala de parto, na propaganda publicitária, no banheiro público ou na fila do posto de saúde.

Não é à toa que tantos movimentos sociais colocam o corpo no centro de suas lutas. Mulheres que denunciam a violência obstétrica, pessoas negras que expõem a letalidade policial, comunidades indígenas que reivindicam o direito de existir segundo seus modos de vida, pessoas trans e não binárias que lutam pelo reconhecimento de sua identidade — todas essas disputas têm algo em comum: a recusa em permitir que o corpo continue sendo território colonizado por forças externas.

O corpo é também memória política. Cada cicatriz revela uma história coletiva. As esterilizações forçadas de mulheres negras e indígenas, durante décadas, mostram como políticas públicas podem se transformar em instrumentos de eugenia. A criminalização do aborto, em pleno século XXI, revela como a autonomia corporal ainda é privilégio de poucos. A marginalização de travestis e pessoas trans, muitas vezes empurradas para a violência e a precariedade, é prova de que a diversidade de gênero continua a ser um campo de exclusão. E o padrão de beleza que adoece não é mero capricho estético; é parte de um dispositivo de poder que produz lucro e opressão a partir do sofrimento.

É aqui que cabe uma autocrítica: homens, sobretudo homens brancos, não podem falar “pelas mulheres”, pelas pessoas trans ou por qualquer grupo subalternizado. Mas podem — e devem — denunciar os mecanismos que fazem do corpo um campo de poder. Silenciar diante disso é compactuar.

A biopolítica nos mostra que a liberdade não se mede apenas pelo direito ao voto ou pela liberdade de expressão. Mede-se também pelo grau de autonomia que cada pessoa tem sobre seu corpo e sobre sua identidade. E, nesse aspecto, a democracia brasileira ainda está profundamente ferida. Quando uma mulher pobre precisa arriscar a vida em um aborto clandestino, enquanto as ricas têm acesso a clínicas seguras; quando uma pessoa trans tem sua existência negada em documentos, empregos ou no acesso à saúde; quando corpos negros são alvos preferenciais da violência policial, a igualdade prometida pela Constituição é mera ficção.

O desafio está em reconhecer que não há neutralidade possível: toda lei, toda norma, todo discurso sobre corpos é sempre uma tomada de posição. A criminalização de práticas, a naturalização de violências, a imposição de padrões e a negação de identidades — tudo isso revela o quanto o corpo continua sendo governado.

É preciso, portanto, inverter a lógica: compreender o corpo não como objeto de controle, mas como sujeito de direitos. O corpo como espaço de liberdade, e não de captura. O corpo como território de resistência, e não apenas de colonização.

Não falo, repito, a partir da experiência das mulheres, das pessoas trans ou de outros grupos diretamente afetados. Falo a partir da responsabilidade de reconhecer que o poder, quando não é questionado, se perpetua. E que a luta pelo corpo é, no fundo, a luta pela própria democracia.

Enquanto o corpo for tratado como mercadoria, como máquina produtiva, como alvo de vigilância ou como campo de controle moral, estaremos vivendo sob uma democracia apenas formal. Só haverá liberdade real quando cada corpo — em sua diversidade de gênero, cor de pele e existência — for respeitado em sua autonomia, desejo e dignidade. Essa não é uma luta de alguns. É uma luta de todos.

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