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O Último Azul - Etarismo, Resistência e a Beleza de Recomeçar
coluna | Pós-Créditos
05/09/2025 00h00 Atualizada há 11 meses
Por: Demetrius Silva | coluna Pós-Créditos
divulgação Vitrine Filmes

O cinema nacional vive um momento raro e poderoso. No ano passado, Ainda Estou Aqui levou multidões às salas e conquistou um Oscar histórico, prêmio que, ainda que não seja a medida final da qualidade da nossa arte, reafirmou o lugar do Brasil no mapa do cinema mundial.

Em fevereiro de 2025, foi a vez de Gabriel Mascaro colocar mais um marco nessa história: O Último Azulvenceu o Urso de Prata – Grande Prêmio do Júri na 75ª Berlinale, um dos mais importantes festivais de cinema do planeta. No dia 28 de agosto, o filme chegou às salas brasileiras carregado de expectativa e entrega uma experiência sensorial e profundamente humana sobre o Brasil profundo.

Um Brasil Distópico que Não Parece Tão Distante

Locações entre as cidades de Manaus, Manacapuru e Novo Airão, o longa se passa num Brasil distópico onde o governo criou colônias de isolamento para idosos. A justificativa oficial é “oferecer qualidade de vida e aliviar o peso das famílias”, mas o subtexto é muito mais sombrio: os mais velhos são vistos como um obstáculo à produtividade de um país que exige trabalho incessante. O governo quer reduzir custos sociais e manter a “máquina” funcionando, em um retrato de Estado que prioriza a eficiência sobre a dignidade humana.

Mascaro não revela o que acontece dentro dessas colônias, ouvimos rumores de que seriam lugares de cuidado, mas também sussurros de que quem vai nunca mais é visto. Muros pichados, olhares desconfiados e o “CataVelho”, uma carrocinha estatal que recolhe idosos nas ruas, dão o tom de uma distopia que assusta por parecer plausível.

Tereza, Uma Heroína aos 77 Anos

divulgação Vitrine Filmes

Nossa protagonista Tereza (vivida de forma magistral por Denise Weinberg) acaba de completar 77 anos e, portanto, é convocada a seguir para a colônia. Sua filha Joana (Clarissa Pinheiro) aceita a medida, acreditando que será melhor para ambas, refletindo a realidade de uma classe média exausta, sem tempo ou estrutura para cuidar dos seus.

Mas Tereza não se conforma. Com suas economias, decide realizar um sonho que nunca pôde considerar: voar de avião pela primeira vez. Para isso, precisa da autorização da filha, mais um lembrete de como sua autonomia foi tomada pelo Estado e até pela própria família.

Esse desejo, porém, não é apenas geográfico. O voo vira símbolo de transcendência: o ato de romper o chão, assumir o próprio destino e provar que ainda é possível começar de novo, mesmo quando o mundo parece decidido a te apagar.

Uma Jornada pelos Rios da Amazônia

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Para chegar ao avião, Tereza embarca no barco de Cadu (Rodrigo Santoro, sempre ótimo), um homem bruto que usa rapé indígena inquieto, acostumado com aquela vida, mas de coração inquieto. É ao lado dele que a narrativa ganha tons de fábula. O encontro entre os dois é quase místico, especialmente quando surge o caracol de baba azul, cujo muco, pingado no olho, revela o futuro.

O realismo é atravessado por elementos fantásticos que expandem a experiência emocional do espectador. Cadu encontra em Tereza um espelho de suas próprias feridas, e a viagem passa a ter significado para ambos.

Roberta e a Redescoberta da Vida

No caminho, Tereza conhece Roberta (a potente atriz cubana Miriam Socarrás), personagem que funciona como catalisadora de transformação. Roberta vive à margem do sistema e oferece a Tereza não apenas acolhimento, mas uma visão de mundo onde ser idosa não é sinônimo de passividade. É com ela que Tereza aprende a celebrar o presente e a rir do que antes a assustava. Essa relação é breve, mas intensa, e dá ao filme um de seus momentos mais luminosos.

O Último Azul é mais do que uma distopia: é uma denúncia poética contra o etarismo e uma celebração do direito de viver plenamente até o último dia. Tereza não é retratada como frágil ou decadente, mas como alguém que encontra força justamente no ato de resistir. “Nunca é tarde” parece ecoar em cada quadro do filme.

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