.Maternidade Vida
A potência da maternidade
coluna | De Mãe para Mãe
03/09/2025 00h00
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
Andressa Anholete

 @marinammarquez
@avisacomunicacao

Primeiro a gente sente que foi atropelada, e não é por amor, não, é pelo puerpério mesmo. Aquela fase de nevoeiro, aquele looping enlouquecedor. A sensação de repetição sem fim que esvazia a gente. É assim: mama, arrota, troca, põe para dormir; acorda, troca, mama, arrota, troca… Viver pelo outro, vinte e quatro horas por dia, pode nos deixar vazias de nós mesmas. Muitas vezes só lembramos de ir ao banheiro quando encostamos a cabeça no travesseiro, e aí é melhor dormir enquanto dá.

É uma neblina só, como diz Rafaela Carvalho. Mas a boa notícia é que nenhum céu fica tampado para sempre. O primeiro ano passa e o sol encontra um jeito de atravessar as nuvens. Ao olhar para o chão e ver a sombra daquela mulher empurrando o carrinho, a gente se lembra de que precisa voltar - nem que seja um pouco - para nós mesmas.

É o momento dos planos. Eu lembro de me sentar com meu caderninho e fazer o exercício do “como me vejo em 1,3 e 5 anos” quando meu filho mais velho começou a me dar um pouco mais de fôlego.

Não tive criatividade para imaginar nem metade do que vivi até aqui. Mas a mais nova acaba de completar um ano e cinco meses, e eu me vi de novo nessa fase. Repetir o exercício foi uma surpresa enorme.

Senti que posso, agora, realmente realizar o que venho sonhando. Como se ser mãe dessas crianças — e ter chegado até aqui com todo mundo saudável e inteiro (com alguns arranhões, pontos e cortes, mas inteiro) — tivesse despertado em mim uma força discreta, porém constante. Uma potência.

Não é delírio. Muita gente vira a chave depois da maternidade. Uma pesquisa recente mostrou que 77% das empreendedoras brasileiras começaram seu próprio negócio depois da maternidade (IRME, 2023). Outras mudam de emprego, redesenham carreira, trocam a régua da ambição. A maternidade chama responsabilidade — e, para muitas, chama também protagonismo.

E esse protagonismo ganha um contorno bonito porque nós, mães, somos especialistas no tal equilíbrio, mesmo quando achamos que não. E o tal do equilíbrio é uma coreografia silenciosa: e-mails na soneca, remédio na hora da reunião com câmera fechada, rascunhos no bloco de notas no estacionamento da escola. Abrir espaço para o trabalho sem sumir dos filhos; abrir espaço para os filhos sem rasgar a própria vida. É muita, muita potência equilibrar isso tudo aqui.

Essa potência não pede capa nem fogos. Ela tem cara de constância. De caderninho aberto, café que esfria e uma decisão silenciosa atrás da outra. É sobre lembrar que atravessamos a neblina, que seguimos, que crescemos junto com eles. E que, se quisermos, podemos ir além. Dominar Marte, se for o caso. Sem capacete ou balão de oxigênio — só na potência da maternidade.

*crédito da foto usada na ilustração: Andressa Anholete

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