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A leveza possível
colunista Lead
07/08/2025 06h00 Atualizada há 1 ano
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe

Instagram: @marinammarquez
@avisacomunicacao

Eu ainda me lembro do susto no olhar da pediatra na consulta pré‑natal. Depois de listar calendários de vacina, curvas de peso e mil cuidados, arrisquei a pergunta que martelava dentro de mim: “Ok, doutora, saio da maternidade, chego em casa com o bebê… e daí? O que faço com ele na primeira hora que estivermos sozinhos?”

Ela franziu a testa, procurou a resposta em algum protocolo invisível e acabou rindo, sem dizer nada que coubesse no vazio que se abriu. Há respostas que ninguém tem para nos dar.

Ali, quando o parto ainda era apenas uma data no calendário, nascia uma mãe em dúvida – e, de brinde, uma culpa. Segundo dados de 2025 da USP divulgados na pesquisa De Mãe em Mãe, 97 % das mães se sentem sobrecarregadas quase todos os dias e 75 % relatam crises de culpa depois de episódios de estresse parental.

A verdade é que a criança chega e a vida vira uma sequência de fases aceleradas, todas acompanhadas de palpite, manual e algoritmo. Estamos sempre atrasadas: quando aprendemos o jeito “certo”, o Instagram decreta que já ficou obsoleto. Faça cama compartilhada, não faça. Amamente em livre demanda, mas só se você ainda sorrir de manhã. Use disciplina positiva, seja amiga do seu filho, mas não seja permissiva. Dá vontade de gritar um Ctrl + Alt + Del e reiniciar o sistema. Cadê o manual dessa coisa?

Metade de nós ainda aponta o dedo para as próprias mães – jurando que fará tudo diferente – enquanto a outra metade copia sem pensar o script familiar. Garantia não existe; erro, sim. Foi errando – dia sim, dia também – que acabei encontrando um antídoto silencioso: leveza.

Leveza não é desistir, nem se iludir. Leveza é saber que cada dia será desafiador, mas escolher as batalhas que importam. É identificar o que é inegociável na criação dos nossos filhos e deixar o resto ter a importância que merece. É trocar a busca pela perfeição por uma busca pelo que faz sentido hoje, para esta família, com os recursos que temos em mãos.

Talvez você esteja lendo estas linhas depois de recolher brinquedos que misteriosamente se multiplicaram pela sala ou enquanto finaliza um relatório de trabalho esperando o mexidão do que sobrou do almoço ficar pronto. Eu só queria te lembrar, de mãe para mãe: existe uma leveza possível. Ela não resolve a bagunça, mas silencia o barulho interior que nos acusa.

colunista Lead - Marina Marquez  (foto: @givieirafotografia)

No fim do dia, a pergunta que vale é simples: qual carga eu preciso mesmo carregar – e qual já dá para soltar do colo? Você pode começar com um passo só: ignorar um grupo de WhatsApp, responder “vou pensar e já volto” em vez de aceitar toda e qualquer demanda, dizer sim quando alguém oferecer ajuda. Cada gesto minúsculo é uma possibilidade – e, quando percebemos, o ar ficou mais leve.

Esta é a primeira de muitas conversas que teremos aqui no Lead. A cada quinzena, trarei reflexões sobre uma maternidade possível – aquela que equilibra mil pratinhos (trabalho, casa, filhos, às vezes sozinha, inclusive) sem perder o prazer de girá‑los. Que estas linhas sejam um lembrete recorrente de que leveza é escolha. E está ao alcance de quem decide pousar pesos extras no chão.