Justiça Bastidor
Confissões, pecados e microfones (quase) desligados
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04/08/2025 06h00 Atualizada há 12 meses
Por: Fátima Uchôa | coluna Entre Linhas & Leis

            Instagram: @fatimauchoa.journalist / LinkedIn: Fátima Uchôa  X: @UchoaJournalist

 

Mais de trinta anos em meios de comunicação não me deram uma aposentadoria (ainda, e, para falar a realidade, nem penso nisso), mas me garantiram uma bagagem considerável de boas histórias, confissões, contos e causos. Alguns momentos muito hilários, reflexivos, outros bem dolorosos e tantos outros que me exerceram uma coação mental tão intensa, que me tiraram o sono – as olheiras eternizadas que o digam.

O resultado é notável pela pressão exercida em minha lombar, detonada por três hérnias de disco, e minha cervical, com quatro protusões até o momento. E pode acreditar que nada me impede de correr, nem na vida nem nas corridas de rua. Nem de usar salto alto e fino - meu ortopedista até já me proibiu de usá-lo, só que eu, como já falei no nosso primeiro encontro aqui, amo desafios, inclusive os que me trariam limitações físicas, já que é minha mente que fala mais alto (grita).

Ah! Antes de prosseguir, vou só abrir um parêntese importantíssimo: Entre Linhas, mesmo com vários desassossegos, acertos e erros, deixo bem claro que não me arrependo das minhas escolhas profissionais como jornalista, radialista, assessora de comunicação etc & tal. Jamais! Sim, já tive crises vocacionais, entretanto, estas me fizeram voltar para onde parara, e retomar as rédeas da minha profissão com mais convicção ainda. Eu me encontrei no e com o Jornalismo. É algo viciante e visceral, um vínculo consangüíneo entre mim e o que faço. Falo que amo tanto o mundo do Jornalismo, que, se isso tudo não existisse, eu inventaria. E quero morrer feliz assim.

Continuando...

Ao longo desses anos, já exerci inúmeras funções no Rádio e na TV. Também permeei por assessoria parlamentar e, há quase quinze anos, cubro especificamente o Judiciário. Entre cafés mornos e muito adocicados saboreados por colegas de redação – não tomo café enquanto trabalho, pasmem! – já ouvi de tudo, tudo. E não é diferente quando estou em campo propriamente dito, em escritórios com minhas fontes para entrevistas ou em eventos diversos institucionais, em meio a autoridades dos Três Poderes.

O melhor momento para se colher informação é antes ou depois do “gravando”. Vixe! Nem imagine o que já ouvi de confissões... Os microfones “quase desligados” sabem mais segredos do que certas súmulas. A propósito: já ouvi isso de uma entrevistada minha, quando opinou que faltaria maior clareza na formação de súmulas.

De autoridades que já me revelaram que nem elas mesmas compreenderam direito o direito que propuseram, a promotores admitindo erros e arrependimentos de denúncias que serviram para manchetes de domingo e para acabar com a paz de quem foi denunciado injustamente. Advogados falando que às sextas-feiras deixavam à deriva os próprios clientes, porque o happy hour não os esperaria. Outros advogados já me confessaram, inclusive, que poderiam sofrer mandado de busca e apreensão a qualquer momento, porque estariam mexendo com o ego de poderosos. Figuras importantes falando mal do colega de toga que divergiu das suas opiniões. Outros renomados realçando como escaparam de ciladas ao não aceitarem presentinhos dados com a melhor das piores intenções. Já ouvi de ex-operador do direito que, deixando de exercer o cargo no âmbito jurídico, dedicou-se à vida política e me confessou um lado sombrio da vida eletiva: “este será meu primeiro e último mandato, porque não sei me vender”.

E já separo aqui um parágrafo para contar sobre um assédio moral que sofri: um danado de um político enveredado em meio de comunicação, bem conhecido na minha região (Paraíba), que, entre um gole e outro de café (não tomei a bebida, mas senti um gosto muito amargo em meu paladar), fazendo convite para que eu “o visitasse” às 6h (da manhã) em seu escritório particular. Ah, essa situação foi uma das piores, já que eu tinha recém perdido o meu pai, na véspera do Dia dos Pais! Entre Linhas, depois de passados longos dez anos desse fatídico episódio, nos corredores de um dos Poderes, eu me reencontrei com o danado e fiz questão de falar com ele, que me respondeu um “olá” assustado e, com cara de pastel murcho, fingindo nunca ter me visto na vida, claro. Acho que foi melhor assim...

O que já ouvi foi dito sempre em off. E o off no jornalismo é quase uma entidade. Um pacto tácito entre a consciência e o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Um momento em que o microfone ou o gravador estão “desligados” – será que estão mesmo? Claro que sim, meu povo! Nunca gravei nada sem consentimento (minha consciência, meu CPF e minha credibilidade agradecem). Contudo, se o tivesse, o noticiário institucional já teria vivido umas três ou quatro crises existenciais de proporções hollyoodianas.Entre Leis, guardo confissões que nem a Lei da Anistia daria conta.

Entre Leis, só para não deixar de me direcionar a normativos que trata do tema de hoje, é bom lembrar que a divulgação de informações obtidas em off pode gerar processos civis por danos morais ou materiais, se, por exemplo, o conteúdo divulgado for falso ou se violar a privacidade de terceiros. Parece em desuso, mas o Código de Ética dos Jornalistas estabelece princípios como a busca pela verdade, a responsabilidade social e a liberdade de imprensa, que podem ser aplicados em casos de divulgação de informações obtidas em off

A verdade é que o bastidor do Jornalismo é um teatro à parte. E às vezes, nos bastidores, as máscaras podem cair com mais facilidade do que decisões monocráticas proferidas em plantão de recesso forense.

Por isso, fica aqui um aviso honesto – e gratuito – a todos que cruzam corredores com jornalistas: não falem o que não devem perto de microfones ou câmeras. Nem desligados, nem tampados com adesivo. Afinal, nunca se sabe, né? A tecnologia evoluiu em escala desproporcional ao que podemos nos certificar. E o jornalista, meu amigo, ouve mais com os olhos do que com os ouvidos.

Até a próxima! A gente se encontra aqui.

Nota: Minha confissão a você, meu amigo, minha amiga, totalmente on: sou levemente viciada em chocolate 70% (ou mais) e em café descafeinado, além de audiências públicas ou entrevistas agendadas com parte da pauta oculta.