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A Geopolítica e o Superman
Colunista Lead
13/07/2025 10h06 Atualizada há 11 meses
Por: Demetrius Silva | coluna Pós-Créditos

 

imagem: Warner Bros. Entertainment.

É curioso e até um tanto desconcertante assistir a um blockbuster como Superman (2025), dirigido por James Gunn, e se deparar com um protagonista que rompe completamente com a representação histórica do herói como instrumento da ideologia estadunidense. O novo filme coloca o Homem de Aço no centro de um conflito entre dois países fictícios, Borávia e Jarhanpur, cujas tensões refletem com clareza embates geopolíticos contemporâneos. A representação é tão direta que incomodou setores mais conservadores do público, em especial grupos que se autointitulam “nerds”, rotulando o longa de "woke", em tom pejorativo. Mas, na verdade, essa reação revela o quanto o filme atinge seu objetivo: provocar reflexão sem renunciar ao entretenimento.

James Gunn, conhecido por imprimir alma e irreverência aos Guardiões da Galáxia, entrega aqui uma versão revigorada de Superman. Colorida, bem-humorada, otimista e até ingênua, mas nunca superficial. Em seu primeiro passo à frente do novo Universo Estendido da DC, ele resgata o espírito clássico do personagem, sem se esquivar das contradições que envolvem um alienígena onipotente tentando ser humano em um planeta marcado por desigualdade e guerra.

A trama coloca Superman tentando impedir uma carnificina entre Borávia e Jarhanpur. Borávia, claramente inspirada em Israel sob a liderança de um regime tirânico, é retratada como uma nação militarmente superior, com apoio direto de potências como os Estados Unidos e acesso irrestrito a armamentos de última geração. Jarhanpur, por outro lado, lembra uma Palestina devastada, esfacelada pela guerra e cercada por campos de refugiados. O filme não esconde sua crítica. Mostra cidades em ruínas, crianças órfãs, populações desarmadas e deslocadas. Em uma sequência particularmente poderosa, vemos Superman voando sobre Jarhanpur carregando um comboio de suprimentos médicos, enquanto drones o vigiam de longe, transformando sua missão humanitária em uma falsa ameaça terrorista.

Ao interferir no conflito, Kal-El não toma lados políticos. Ele simplesmente salva vidas. E é justamente essa postura humanista que o transforma em alvo de governos, elites e da desinformação. Lex Luthor é o verdadeiro antagonista. Um bilionário manipulador que usa seu poder econômico e midiático para moldar a opinião pública, sabotar instituições democráticas e transformar o Superman em inimigo do povo. Sua figura é um espelho cruel de figuras reais que interferem em políticas globais com interesses puramente econômicos.

Um dos pontos centrais do filme é como a verdade pode ser distorcida por aqueles que detêm poder e controle sobre a informação. Macacos (sim, são animais manipulados pelo Lex Luthor) fazem o trabalho sujo, usando computadores para comentar postagens nas redes sociais ajudando a distorcer fatos. A narrativa mostra como imagens manipuladas, discursos forjados e versões adulteradas dos fatos são capazes de transformar um ato de compaixão em uma ameaça aparente. Isso serve como espelho incômodo do mundo real, onde a desinformação se espalha mais rápido que os fatos e onde teorias da conspiração ganham força nas redes sociais, muitas vezes respaldadas por figuras públicas ou estruturas de poder. O filme denuncia como, em tempos de guerra de narrativas, a verdade se torna frágil, vulnerável e facilmente sufocada por interesses políticos, econômicos e midiáticos. Assim como na realidade, a reputação de alguém pode ser destruída em segundos por uma mentira bem contada, e poucas vozes permanecem firmes para restabelecer os fatos.

Copyright 2025 Warner Bros. Entertainment. All Rights Reserved. TM & © DC

Essa manipulação se estende para além da política. Guy Gardner, interpretado por Nathan Fillion, é o Lanterna Verde debochado e passivo-agressivo que representa a desconfiança institucional contra Superman. Ele não esconde seu desprezo pelo alienígena, mesmo quando suas ações salvam vidas. Já a Gangue da Justiça, com participações carismáticas de Mulher-Gavião (Isabela Merced) e Sr. Incrível (Edi Gathegi que tem uma das cenas mais legais do longa e uma parceria com Superman divertida), funciona como um contraponto cômico e estratégico. Insere leveza sem comprometer a tensão.

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Lois Lane, vivida com inteligência e carisma por Rachel Brosnahan, retoma o espírito da personagem de Margot Kidder, de 1978. Ousada, comprometida com a verdade e afiada nos diálogos, ela se torna peça-chave na investigação sobre a manipulação midiática promovida por Lex. Mas Lois não atua sozinha. O Planeta Diário também é mostrado como uma instituição jornalística que resiste à avalanche de fake news, mantendo sua credibilidade e sua função social. Em tempos de polarização e guerra de narrativas, o jornalismo, aqui, é uma das poucas ferramentas capazes de trazer lucidez ao caos e dar voz aos fatos, mesmo quando eles são abafados por interesses poderosos.

Outro destaque absoluto é o cão Krypto. Um fiapo de manga branco, lindinho, desobediente e adorável, que participa ativamente de várias sequências de ação. Em momentos-chave, ele salva Superman de emboscadas e explode em cenas cômicas que arrancam risadas sinceras. Sua presença vai além do alívio cômico, representa a pureza e a compaixão que o filme deseja transmitir.

Superman (2025), nas mãos de James Gunn, não é apenas um reinício para o universo da DC. É uma declaração de intenções. O filme resgata valores clássicos como justiça, empAitia e esperança, mas os coloca diante do caos do século XXI. A crítica conservadora que acusa o filme de ser “woke” é, ironicamente, um sinal de que a mensagem foi compreendida. Ao retratar Superman como um imigrante que escolhe proteger uma humanidade falha, mesmo sendo rejeitado por ela, Gunn faz uma poderosa afirmação política. A verdadeira força do herói está em salvar até mesmo quem o odeia. Em tempos em que até os heróis são alvo de manipulação e polarização, ainda vale a pena acreditar no bem. Mesmo que ele venha de outro planeta.