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Parar não é fracassar; é uma pausa para florescer
Colunista Lead
10/07/2025 06h00 Atualizada há 1 ano
Por: Juliana Neiva

Instagram: @juneivabsb / Linkedln: Juliana Neiva

Durante muito tempo, achei que parar era sinônimo de fraqueza. Vendo o exemplo dos meus pais, que vieram de uma base humilde, aprendi que a vida era feita de seguir em frente, sempre. Minha mãe, com a mesma carreira do meu pai, trabalhou o dia todo enquanto criava os filhos. Não havia tempo para pausas. Pausas eram luxo. E, para as mulheres da geração dela, ainda mais. Foi nesse ritmo que vivi por 45 anos, sempre acreditando que eu não podia parar, que precisava ocupar espaço, conquistar meu lugar, dar conta de tudo.

Até que um sonho antigo começou a florescer no meu peito, com força: eu queria parar. Queria viver em outro país. Queria saber como era me lançar no mundo.

E foi assim que, com coragem e um pouco de frio na barriga, tirei um ano e meio sabático. Fui para os

arquivo pessoal - Washington capital dos EUA

Estados Unidos com meu filho, que foi estudar o ensino médio por lá. Aproveitei para estudar inglês intensivamente, de segunda a sexta-feira, todos os dias.

A rotina era completamente diferente da que eu vivia em Brasília, onde tudo gira em torno do carro. Saí de uma capital e fui para outra. Em Washington, D.C., optei por viver o transporte público por um tempo e essa decisão transformou a minha experiência. Meu trajeto diário até a escola levava mais de uma hora entre ônibus e metrô. Um tempo precioso, que me ensinou a observar a cidade e o tempo com outros olhos.

Todos os dias, no mesmo ônibus, vi a cidade pulsar em silêncios e movimentos. Me marcou especialmente a rotina de um pai que embarcava sempre no mesmo ponto com um bebê no carrinho. De manhã, levava a criança para a creche; à tarde, voltava com ela nos braços, repetindo aquele gesto com uma ternura firme que me atravessava. Era como se, enfim, eu tivesse tempo para reparar na beleza dos rituais cotidianos.

Essa pausa também me permitiu ver as diferenças culturais. No Brasil, um olhar já vira conversa; ali, o silêncio parecia regra. Às vezes soava como indiferença, outras como respeito. Poucas vezes furei essa bolha, mas houve um dia em que uma mulher, que via sempre na parada e com quem nunca tínhamos trocado sequer um “bom dia”, comentou sobre o atraso do ônibus. Engatamos uma conversa que durou pouco mais de dez minutos. Ela queria saber de onde eu era e o que me levou até lá. Eu soube que ela era ucraniana, que migrou ainda jovem para estudar, casou, teve uma filha e hoje dava aulas em uma escola pública do bairro. Como jornalista que sou, perguntei sobre a guerra. Com um suspiro cheio de resiliência, ela me contou que a família seguia na Ucrânia, incluindo irmãos mais novos que estavam lutando. Trocamos impressões sobre a irracionalidade daquele conflito. Ela desceu logo depois, mas eu segui viagem imersa nos pensamentos, refletindo sobre a dor da incerteza que ela vivia todos os dias.

A rotina calma, sem agendas cheias de reuniões e prazos a serem cumpridos, também me deu a chance de ver as quatro estações passarem diante dos meus olhos. É como se a natureza ali tivesse o compasso certo: florescer, murchar e florescer de novo, em outras cores, de outras formas. Parecia filme, mas era vida real. Era a minha vida, reinventada.

Claro que nem tudo foram flores. Enfrentar um novo país envolve também aprender a lidar com burocracias, pedir uma instalação de energia elétrica ou tratar do contrato de aluguel em inglês, claro. Essas coisas nos forçam a entender uma lógica de funcionamento que não é a sua e fazer isso aos 45 anos foi um exercício de humildade. Mas também de força e de redescoberta.

Outro ponto essencial nessa jornada foi o apoio do meu marido. Foi um projeto grande, que nos custou dois anos de programação. Ele não pôde me acompanhar por conta do trabalho, mas na logística desse ano sabático contabilizamos também as viagens dele para nos visitar. E todos os dias, sem exceção, conversávamos, nos apoiávamos, nos escutávamos. Estivemos mais juntos do que nunca. Vivemos a distância sem podar os sonhos de cada um. E isso nos fortaleceu.

arquivo pessoal

Essa pausa me ensinou que parar não é desistir. É, muitas vezes, o que permite continuar de forma mais íntegra. Dá medo, sim. Porque a ausência de uma agenda profissional pode nos fazer duvidar do nosso valor. Mas hoje entendo que ninguém floresce o tempo todo. Há momentos de poda e de descanso que são tão importantes quanto a floração.

Voltei com mais calma. Com mais clareza sobre o que me move. Voltei inteira. E com a convicção de que parar não é fracassar, é um ato de coragem, reconstrução e escolha consciente.

Hoje deixo aqui um convite: se puder, pare. Nem que seja por um fim de semana. Por uma tarde inteira. Não como fuga, mas como retorno.

Porque, às vezes, é preciso sair de cena para voltar ao palco com tudo aquilo que somos, em versão mais verdadeira