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A balada do Sangue Latino
Colunista Lead
27/06/2025 15h58 Atualizada há 11 meses
Por: Demetrius Silva | coluna Pós-Créditos

A latinidade tem enfrentado momentos difíceis nos últimos anos. Isso porque a América Latina tem sido inundada pela ascensão da extrema direita, afetando profundamente o mundo da arte, especialmente o cinema. Os impactos vão desde cortes orçamentários até tentativas diretas de censura e desvalorização do setor cultural.

Na Argentina de Javier Milei, cortes severos atingiram diretamente o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), provocando paralisações em produções e protestos da classe artística. No Brasil, durante o governo Bolsonaro, instaurou-se uma distopia cultural que desmontou políticas públicas e corroeu avanços conquistados desde os anos 1990, período em que Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, dirigido por Carla Camurati, marcou a retomada do cinema nacional. A cultura brasileira foi atacada por dentro, com boicotes a filmes como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Marighella, de Wagner Moura, ambos alvos de tentativas de inviabilização por seus posicionamentos políticos e artísticos.

Mas os ataques à arte não são exclusivos da América Latina. Em diversas partes do mundo, artistas têm enfrentado governos que tentam desmoralizar a cultura de seus povos, reduzindo-a a produto descartável ou inimigo ideológico. A atividade artística sempre foi, essencialmente, uma forma de responder ao presente, de provocar, de iluminar zonas de sombra e de lembrar aos cidadãos que sonhar, amar, descansar e criar são atos políticos. Em tempos em que muitos mal conseguem uma tarde em família sem serem engolidos por boletos e pela correria, a arte oferece respiro, reflexão e resistência.

É dentro desse cenário que a história de Ney de Souza Pereira, ou Ney Matogrosso, adquire ainda mais potência simbólica. Para muitos brasileiros, Ney representa o artista audacioso que nunca se curvou a padrões impostos. O filme Homem com H, dirigido por Esmir Filho, apresenta essa figura de forma sensível e pulsante, contrastando com uma época que, paradoxalmente, parece até menos preconceituosa do que a atual.

imagem de divulgação Paris Filmes

A obra já começa com uma cena poética: o menino Ney em meio à natureza, tocando frutas, troncos e folhas, entrecortada com a imagem do artista em plena performance no palco. Essa montagem inicial já estabelece o eixo principal do filme, a oposição entre repressão e liberdade. Essa natureza simbólica, presente no início, retorna ao final, costurando o arco narrativo com lirismo. A rigidez do pai militar (interpretado por Rômulo Braga) e a doçura da mãe (Hermila Guedes) formam o pano de fundo da formação emocional de Ney.

A elipse que transforma o garoto enchendo a caixa d’água no jovem que começa a se perceber artista é um dos momentos mais belos do longa. Jesuíta Barbosa, no papel de Ney, entrega uma atuação visceral. Ele encarna a sexualidade, a insegurança, a força e a delicadeza do artista com profundidade. Sua luta não é apenas contra a repressão do pai ou da ditadura militar, mas também contra os limites sociais que insistem em enquadrar o corpo e a voz dissidentes.

A insegurança nos gestos, o cuidado nas palavras e a ousadia crescente compõem o processo de libertação que culmina na explosiva apresentação com os Secos & Molhados. Esse momento marca a transição definitiva de Ney para o palco, espaço de liberdade, denúncia e desejo.

O filme segue uma estrutura em grande parte cronológica, apresentando as relações afetivas de Ney com sinceridade e calor. As cenas de sexo são bem filmadas e tratadas com respeito e poesia. Os números musicais são marcantes, especialmente Rosa de Hiroshima e Homem com H, e funcionam como guias emocionais para o espectador.

Há também um resgate fundamental: o relacionamento de Ney com Cazuza, frequentemente negligenciado em outras obras, ganha aqui um destaque mais digno e afetivo. No filme Cazuza – O Tempo Não Pára (2004), de Sandra Werneck e Walter Carvalho, por exemplo, a relação é apenas brevemente mencionada. Já em Homem com H, ela é mostrada com ternura, complexidade e espaço narrativo próprio, como deve ser.

No entanto, o coração do filme é a relação com o pai, Antônio. Essa figura aparece como representação viva da repressão, da masculinidade autoritária e da lógica de dominação que Ney jamais aceitou. A oposição entre o “homem de Neandertal”, termo evocado pelo pai, e o “bicho” que Ney se intitulava, estrutura boa parte da dramaturgia. Essa metáfora atravessa décadas, retornando em cenas pontuadas por tensão, silêncio ou embate direto.

Esmir Filho costura esses conflitos com cenas simbólicas e provocadoras. Em uma das mais memoráveis, os censores em Recife pedem para que Ney “mexa menos a região pélvica” durante a apresentação. A resposta está no olhar, na arte e no corpo em movimento: Ney não recua.

E é nesse fluxo de confronto e emancipação que a narrativa desemboca num gesto poético final. Ney, ao adquirir um terreno e descobrir ali um rio até então desconhecido, o batiza como Rio Matogrosso. A metáfora se impõe naturalmente. Assim como em “Pedra de Rio”, canção que evoca um tempo que esculpe a identidade pelas margens, Ney se reconhece no curso imprevisível das águas. Não há encerramento, apenas continuidade. Ele não representa apenas uma era ou um grito contra a repressão. É matéria viva, corrente, que resiste escavando caminho.

Homem com H mostra que, em tempos de repressão, a arte ainda é o maior ato de insubordinação possível. E Ney, com sua voz, seu corpo e sua coragem, segue sendo a vitamina poética que a América Latina tanto precisa para continuar sonhando e resistindo. 

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